terça-feira, 8 de junho de 2010

A ditadura gay

Eu gosto de colocar na roda tudo que me engasga, tudo que me faz refletir, tudo que me alegra, tudo. Recebi hoje um email equivicado de um tio que eu gosto muito e que admiro pela inteligência, mas tive necessidade de respondê-lo porque achei o discurso que ele disseminava pela net um tanto quanto perigoso, ainda mais sabendo seu círculo de amizades, homens, pais de família, onde não seria difícil a manutenção do discurso preconceituoso registrado pelo texto do vereador Carlos Apolinário. Mais perigoso quando sabemos que está, também, na discussão o projeto de lei que considera crime a homofobia e são uns deputados bonitinhos bem no quilo do ilustre vereador que estão lá para votar.

Segue o texto do vereador e minha resposta ao email. Já que estamos na roda, vamos dançar na roda, vamos rodar!

A ditadura gay



CARLOS APOLINARIO


De alguns anos para cá, muito se tem falado sobre gays e lésbicas. Em todas as Casas Legislativas, e também no Executivo, têm sido aprovadas leis a esse respeito -e ainda existem muitos projetos em tramitação.

A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou a lei nº 10.948/ 2001, que determina: se alguém for acusado de discriminar um gay em uma empresa, além da multa e do processo penal, o estabelecimento poderá ter cassada a licença de funcionamento. Ou seja, se a empresa tiver 200 funcionários e sua licença for cassada, todos serão punidos com a perda do emprego.

O movimento gay faz um intenso lobby para que o Congresso Nacional altere a lei nº 7.716, que define os crimes de racismo.

O objetivo das lideranças gays é que a legislação passe a punir também aqueles que têm uma opinião divergente das suas.

Se alguém falar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou disser que não concorda com a adoção de crianças por homossexuais, poderá ser processado.

E mais: caso essa lei seja alterada, não poderei falar da Parada Gay, nem mesmo fazer o discurso contra a instalação da Central de Informação Turística GLS pela Prefeitura de São Paulo, como fiz na Câmara Municipal. E não poderia nem escrever este artigo.

A Constituição Federal assegura o direito à liberdade de expressão.

Podemos criticar divórcio entre héteros, sindicatos, empresários, políticos, católicos, evangélicos, padres e pastores, mas, se falarmos contra o pensamento dos gays, somos considerados homofóbicos e nos ameaçam, até com processos.

Punir alguém por manifestar opinião divergente é próprio das ditaduras. Eu tenho a convicção de que já estamos vivendo numa ditadura gay, pois, na democracia, qualquer pessoa pode discordar.

Eu não concordei com a Prefeitura de São Paulo quando ela proibiu as manifestações na avenida Paulista, mas lá manteve a Parada Gay. A Paulista é uma via de acesso aos principais hospitais da cidade.

Por esse motivo, foi proibida a realização de eventos, entre eles a comemoração do Dia do Trabalho promovida pela CUT e a Marcha para Jesus. Não faz sentido manter a Parada Gay na Paulista.

Por defender essa posição, sou acusado de ser homofóbico.

Também sou acusado de homofobia por me manifestar contrariamente à participação da prefeitura na criação da Central de Informação Turística GLS no Casarão Brasil, sede de uma ONG gay.

Não é correto usar o dinheiro público para dar privilégio a um grupo. O ideal é criar um serviço que atenda a todos os segmentos sociais, já que a Constituição diz que todos somos iguais perante a lei.

Respeito o gay e a lésbica, pois, como cristão, aprendi o significado e o valor do livre-arbítrio, mas discordo da exclusividade que o poder público dá à comunidade gay.

Essas medidas tornam os homossexuais uma categoria especial de pessoas. Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco alguém apresentará um projeto transformando São Paulo na capital gay do país.

CARLOS APOLINARIO, vereador em São Paulo pelo DEM, é líder do partido na Câmara Municipal. Foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e deputado federal."
 
Meu tio, permito-me discordar desse texto do Deputado Carlos Apolinário, assim com as questões movimento do negro foram e ainda são muito criticadas, consideradas abusivas, radicais, o mesmo acontece com o movimento gay, porque essas pessoas, com pensamento semelhante ao deputado querem manter a farsa do aceito, respeito, mas não quero perto, tanto para gays, negros, deficientes... é o "sei que vocês existem, mas respeitem meu espaço". O caro deputado mantém um discurso raso sobre ditadura. O que ele sabe sobre as questões dos gays? Qual pensamento ele defende sobre as mortes, agressões, violência sofrida pelos gays, diariamente, dentro de casa, na rua, no banco, na tv? Precisamos ter cuidado ao falar de assuntos tão sérios principalmente quando se trata de vidas humanas.


É o tal negócio de acusar primeiro antes que resvale para si. Nós gays precisamos melhorar muitas coisas no nosso discurso, mas a luta é pelo respeito a diversidade e a vida e a liberdade que nos é castrada diariamente. O Deputado Calor Apolinario deveria tirar seu discurso ultrapassado e perigoso do armário e assumir de vez o seu ponto de vista, na fala "Respeito o gay e a lésbica, pois, como cristão, aprendi o significado e o valor do livre-arbítrio..." ele já deixa claro o que pensa realmente.

Gostaria que o senhor enviasse para as outras pessoas que receberam este mesmo email para que a discussão possa ser levantada numa via de mão dupla e não apenas na via do estimado deputado.

Beijo

Edu"

PS- na resposta ao email eu confundi e escrevi Deputado, o cidadão agora é vereador de São Paulo.

6 comentários:

Jurandy Boa Morte disse...

DITADURA GAY - Faz-me rir Exmo. Vereador...

Um ignorante se arvorando a tecer teorias sobre democracia, preconceito, legitimidade social e ordenameemnto jurídico dá nissso... Enquanto ele insiste num discurso raso destes ocupamos posições e fazemos valer nosssas conquistas.
Ele é um evangélico bitolado e homofóbico, isso sim.

Forte abraço Edu.

Bípede Falante disse...

Edu, total apoio a sua resposta.

Ramosrocha disse...

Não é alinhamento com o Vereador. Não existe alinhamento automático e, nem todos têm pensamentos semelhantes.
Não há farsa do aceito ou desrespeito pelo contrário. Aceito as difereças, me fortaleço com o seu convívio. No entanto acho um exagero lutar neste campo através de Lei para impor direitos a cotas, a espaço na sociedade para etinias ou preferência sexual. A contrário senso os outros diferentes também precisarão de Lei. E nenhuma sociedade se constroi dessa forma; dará errado sempre.
Educação em primeiro lugar; ocupar os espaços pela competência e pelo trabalho.
Filho de Pais Pobres e Mulatos me fiz pelo estudo, pelo trabalho e pelo respeito a todos. Não me queixo dos acidentes de percurso. Não me queixo da sorte.
É por aí....Meu caro Du, parece que não me dei mal,... avaliação já na reta derradeira.
Beijos do Tio de sempre...

Ryta Castro disse...

quando começei a ler me subiu uma raiva, quando concluir a leitura compreendi nitidamente que esse cara nao tem noçao do que é Liberdade de expressão, o que é gay e lésbica, o que é ditadura, o que é ser negro, o que é democracia, o que é ser vereador,é UM SEM NOÇÃO!de tudo o que mais me preocupa é saber que ele foi votado e se entitula vereador.QUE PAÍS É ESSE?

sRG disse...

pois bem...
Não acredito na dita igualdade/ normatividade. Ela(s) simplesmente não existe(m). A suposta igualdade é forjada todos os dias e me parece que o movimento gay é mais uma tentativa de. Essa seria uma possível visão... mas diria até que o movimento gay não se preocupa (ou não deveria se preocupar) em fazer igualdade, mas sim de se fazer justiça, a qual tbm não segue, ou não deveria seguir, um programa apriorístico.
Justiça é pura iventividade e assim deve ser criada, insistida todos os dias. Como tantos outros erros na história o movimento gay pode sim estar cometendo um ou outro erro pelo seu caminho, mas o mais engraçado, ou interessante, é percebermos que quando se trata de possíveis erros da [suposta] minoria, a sociedade rapidamente sabe apontá-los. Diria até que quando não se identificam, criam-se erros. Forja-se um, rapidamente.
O mais estranho ainda é o tom de indignação dessa mesma sociedade e de seus [tbm supostos] representantes políticos. Me pergunto agora quantos desses vereadores se indignam todos os dias ao pensar que gays sequer podem assumir tranquilamente na rua que são gays devido ao medo do panótico (vigia) moral-cotidiano? Quantos se indignam ao ouvir certos discursos, já clichês, como "prefiro um filho bandido ao filho gay"? Quantos vereadores são gays ou tem desejos homoafetivos, mas sequer conseguem assumi-los nem mesmo para seus respectivos analistas? Enfim, quantas indignações sobre as causas gays somos capazes de criar, alimentar, forjar, sugerir? pensemos...

ARTHUR SCOVINO disse...

Agora virou moda reclamar que os gays e os negros defendem sua superioridade nos discursos dos movimentos. O pior é isso torna cada vez mais difícil de uma idéia justa chegar de forma limpa na parte preconceituosa ( no sentido de ignorância) da sociedade. Os ataques contra os grupos "marginalizados" até os anos setenta e oitenta, quando ainda não tinha punição nem o tal do politicamente correto,eram mais honestos. Provavelmente esse cara diria que não gosta de viado e pronto. Esse tipo de discurso é perigoso e aparece cada vez mais na mídia e na política. É fácil identificar que um cara é otário quando diz que odeia viado, mas quando usa esse argumento da moda de reclamar dos "exageros" dos movimentos, fica mais nítido que a participação política destes torna-se cada vez mais séria que imaginamos.