terça-feira, 22 de julho de 2014

O Amargo(sa) da arte

Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de sequências, dó de peito
Para viver a beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo
Porque de outro jeito a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi "simão no deserto"
Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como "cachorros dentro d'água" no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais


Sempre retorno a esta resposta do cineasta JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE à pergunta: POR QUE VOCÊ FAZ CINEMA?, musicada por Adriana Calcanhoto. Atualmente, isso vem reverberando em mim mais do que compreender por que eu faço arte, principalmente por que viver. Tenho sentido tristezas e incômodos grandes com as coisas do mundo e me pergunto se faz sentido o que penso ser importante, se vale a pena.

Semana passada, eu estava num evento sobre Educação Especial, em Amargosa. Justamente no dia que explodiu aquela revolta popular por causa da morte de uma criança por uma atitude irresponsável de policiais que invadiram uma casa atirando. 

A história é complicada, mas as razões do comportamento da população são super compreensíveis. A cidade vem de um histórico de abandono e descaso da segurança pública. Segundo moradores, há apenas 3 policiais no município e a violência crescendo constantemente. O Estado, irresponsavelmente, dá as costas aos fatos e resolve tomar providência quando a situação chega ao extremo.

Voltei muito afetado com o ocorrido, pensando na família que perdeu sua criança, pensando na cidade que também é minha, é de todos nós, pois em todos os lugares passamos pelas mesmas questões de abandono, violência, incompetência, corrupção e impunidade.

Diante de tudo isso, toda hora, a pergunta estala na minha cabeça: 

domingo, 6 de julho de 2014

Vida [nunca mais] sozinha

para Nei Lima

Havia sempre algo de dor no amor. Uma falta que não se preenchia com nenhuma língua, nenhuma pica, nenhum abraço conchinha em final de gozo. Era uma sensação de despedida até mesmo na chegada. Uma certeza de que aquilo passaria. Fumaça de cigarro em bebida quente. Mente que mentia a cada nova paixão dilacerante findada antes mesmo de terminar. Desespero em cada bar, boate, dark room. E o retorno para casa vazia.

Mas teve um dia em que aquilo não passou. O peso aliviou no peito, os olhos desanuviaram da saudade, o corpo relaxou. Tudo virou incenso, cheiro de mato, flor. Tempo esgarçado entre uma grama e outra do farol. Viagens intermináveis no papo do café na cozinha. E a certeza de que a vida nunca mais será sozinha.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A copa comeu

Me arvorando a ser João Cabral de Melo Neto #sóquenão

Artista :

A copa comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. A copa comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. A copa comeu meus editais. A copa veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meus projetos.

A copa comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. A copa comeu metros e metros de gravatas. copa comeu a possibilidade de eu vestir ternos, sapatos, chapéus. A copa comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

A copa comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

A copa não conseguiu comer na estante todos os meus livros de poesia.

Faminta, a copa devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminta ainda, a copa devorou o uso de meus utensílios: meus banhos quentes, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

A copa comeu as frutas que não pude colocar sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

A copa voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meus projetos.

A copa comeu meu Estado e minha cidade.

A copa comeu, desde o ano passado, até os dias nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta e o artista de agora. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. As possibilidades de trabalho.

A copa comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça. A copa me trouxe o medo da morte.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

foto de Agnés Jaubert



sábado, 3 de maio de 2014

Nenhuma porta aberta

É porque eu entendo dessa forma. Mesmo sabendo que a dor é do outro, a única maneira de poder tentar amenizar é refletindo sobre o que ali espelha também nossas dores. Não se trata de se colocar no lugar do outro ou superestimar nossas dores, não, ao contrário. É no silêncio e na percepção do que nos toca que pode estar a chave para abrir outras portas naquele lugar. Fico pensando nas minhas experiências e o que eu poderia ter dito, o que eu poderia ter feito para tentar adoçar aquele sal. Concluo que se eu não consegui ainda digerir certas coisas, não tenho repertório o suficiente para entrar naquele lugar e tirar de dentro a planta que murchou. Sensação ruim de relembrar e não conseguir avançar.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Despertando Judites - prova de cor



Hoje, 23 de abril, é o Dia Internacional do Livro e venho compartilhar a alegria que foi ter nas mãos a prova de cor do "Despertando Judites - experiências de criar e aprender dança com crianças", com textos escritos por mim, Fafá Daltro e Lucas Valentim.

Esta publicação é o resultado de um trabalho desenvolvido junto às crianças do Instituto Beneficente Conceição Macedo, no período de Dezembro de 2012 a Abril de 2013.

Criamos um material que dialogue com os educadores e os auxilie em trabalhos corporais em sala de aula. O melhor de tudo: com distribuição gratuita.

Agora é só esperar a gráfica entregar!

O projeto foi contemplado pelo Edital Setorial de Dança 2012, realizado pela FUNCEB/SECULT-BA.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Bebendo e vivendo com Adriana

Este cd de Adriana Calcanhoto foi um dos discos que mais ouvi na vida e continuo ouvindo. A música título traduz muito minha personalidade e meus gostos. "Eu não gosto do bom gosto Eu não gosto de bom senso Eu não gosto dos bons modos Não gosto".

Lembro que logo quando vim morar em Salvador, em muitas madrugadas, eu colocava o cd baixinho para não acordar a família e bebia whisky escondido à luz de uma luminária e chorava (uma garrafa pela metade, herança de um carnaval). Adorava chorar ouvindo Água Perrier. Eu fazia drama comigo mesmo, inventava tristezas, embora fosse início de descoberta da sexualidade, amor platônico e sentimento de vazio. "A vida não é filme você não entendeu".

Nessa época eu estudava na Escola de Belas Artes e amava as "cores de Frida Khalo" e a cor dos olhos esverdeados que me inspiraram a escrever "Aguarrás", texto que foi também início da minha carreira como dançarino/ator.

E quando já estava amanhecendo, eu dormia enquanto Adriana repetia "quais eram minhas esperanças"... 

Hoje em dia,  "lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada", mas ela me ajuda a refletir.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um chá para Odete - um pouco de como tudo começou

Escolhendo os chás que Odete prefere. 

Foi exatamente o chá o primeiro motivo para a pesquisa do espetáculo. No meu encontro com Lucas Valentim, o identificamos como um ponto em comum entre nossos trabalhos "Judite..." e "Troca Imediata de Saliva e Suor" (lindíssimo, por sinal!). Daí, resolvemos fazer chás e confissões em todos os dias de ensaio/encontro. Então, surgiram as danças, as lágrimas, os sorrisos, as lembranças... 

Lembro que Claudia Barral 
foi nos ver num dos últimos dias antes da estreia e nos acalmou as incertezas. Agora sinto os sabores e cheiros que emanam da nossa mesa e fico feliz por reencontrá-la, Odete!

Odete, traga meus mortos - 06/04 (próximo domingo) - 20h - Casa Preta (Rua Areal de cima, nº 40, Dois de julho) - R$ 12,00 (inteira) e R$ 6,00 (meia).


 foto de Gabriel Guerra

segunda-feira, 31 de março de 2014

Arrumando a casa para Odete chegar

Este mês de Abril vem chegando com um gostinho muito especial de chá, suco de maçã, biscoitinhos, brindes, botas, abraços e lembranças. Odete reaparecerá para matar ou trazer mais saudades. Há tanta coisa a confessar! Há tanta coisa para sentir!

Comecei a arrumar a casa/coração para recebê-la depois de tanto tempo sem encontrá-la, junto com Lucas Valentim. Como será esse reencontro? Como meu corpo reagirá? Confesso (já comecei as confissões) que estou ansioso e feliz por este momento. Odete é colo, é doçura e amargura ao mesmo tempo, é recordação dos cheiros, da terra, das ruas, das peles, dos beijos dados e daqueles apenas desejados. Odete é vida embora traga lembranças de mortes, de passado. Odete é este contínuo de acontecimentos que jamais estancam, que nunca ficam apenas no passado porque se acumulam e se transformam em presente.

Odete estará presente no início de no fim deste Abril. Eu gostaria que vocês também estivessem presentes.

06 de Abril - na Casa Preta (Rua Areal de Cima, 40, Dois de Julho) 
25 de Abril - no Espaço Xisto Bahia (Biblioteca Central dos Barris) - Integrando a programação do Festival VivaDança 2014.




quinta-feira, 27 de março de 2014

Teatro: a alavanca dos meus sonhos

Hoje é o Dia do Teatro! Isso me fez recordar de tudo que venho perseguindo desde cedo, ainda em Sto Amaro onde pendurava nas orelhas brinco com as máscaras que choram e riem, quando assistia às novelas e desejava atuar como aqueles atores, quando mainha alugava ônibus, reunia os amigos e vínhamos para Salvador assistir às peças de teatro...

Teatro sempre foi meu sonho, meu desejo maior! Como não me via na tv e nem nos palcos (nunca via um deficiente em cena de teatro profissional), enveredei pelas Artes Plásticas e pude enfim, fazer um pouco de teatro, numa disciplina eletiva da Escola de Teatro da UFBA.

Em 1998, estreei nos palcos soteropolitanos um texto, escrito por mim, chamado "Aguarrás", dirigido por Nei Wendel, apresentado no Projeto Ato de 4. Por força do destino, estreei antes no teatro do que na Dança que foi onde me encontrei, verdadeiramente.

E foi a Dança que me proporcionou, anos mais tarde, viver uma experiência lindíssima no teatro profissional, atuando no espetáculo "Tempête a 13º Sud", do diretor francês Gilles Pastor, com texto de William Shakespeare. Apresentamos aqui em Salvador e também em Lyon, no ano de 2009.

Sou muito grato à Dança, assim como sou muito grato ao Teatro por ter sido a alavanca dos meus sonhos, dos meus desejos e das minhas realizações.

Evoé!!!!

cena de Tempête a 13º Sud