segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Você senta na urina?

Chega um momento em que uma frase ecoa: ELES VENCERAM!
Chega uma hora em que as forças para brigar se esgotam e parece não fazer sentido gritar o acontecido que se repete, repete, repete... Ontem eu acordei com o corpo tremendo e devo fico assim sempre que lembrar da falta de dignidade que nos forçam passar. E quando você conquista um feito maravilhoso, como por exemplo ser o único professor cadeirante de Dança de uma Universidade Pública, quando você pensa ter conquistado tanta coisa, você se depara com o impedimento de um direito básico. Ou seja, avançamos em que?
Eu juro que tentei não me expor dessa forma. É humilhante, eu sei, mas não adianta conversar pessoalmente com ninguém, estamos vivendo a era da mídia, da exposição. As coisas só se resolvem se são expostas na internet ou televisão. Se é assim... que assim seja.
Eu perguntei lá e perguntarei aqui novamente: Você senta na urina?
Na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, o deficiente é obrigado a utilizar um banheiro (o único que existe para nós - um para cada gênero) imundo, aberto a qualquer pessoa que se aglomera em filas enormes na porta dos banheiros adaptados. Foi assim quando fui à inauguração no show dos Novos Baianos, foi assim agora no show de Zé Ramalho. Embora, a funcionária do TCA, chamada Ana Paula tenha me dito que eu não dei sorte porque eles cuidam desses banheiros, sim. Eu que não tive sorte nas duas vezes que precisei utilizar. Ainda repetiu que eu pegasse leve com eles porque o TCA não deveria se responsabilizar pela falta de educação das pessoas que sujam o banheiro e ela como mulher também não gosta de banheiro sujo. A funcionária da limpeza ficou muda, num primeiro momento e em seguida afirmou que limpava, sim.
Vamos combinar que a Concha Acústica do TCA não melhorou em nada apesar dos milhões gastos na tal reforma. Para a pessoa com deficiência, inclusive, piorou, pois sem o foço não temos nenhuma visibilidade na parte de baixo e em cima, muito menos quando as pessoas levantam. Agora, inventaram de colocar uma plataforma. Eu disse 1 (uma) plataforma. Nesse último show havia, pelo menos, 6 cadeirantes que eu tenha contado. É constrangedor você disputar com outra pessoa quem será o privilegiado de conseguir ver o artista que você se dignou a pagar caro para assistir. Engraçado, que para esta plataforma havia um funcionário de amarelo, feito poste, guardando para que ninguém se aproveitasse daquele "benefício" que estão nos proporcionando, mas no banheiro, não tem nenhum para fiscalizar a entrada e impedir que quem não seja deficiente utilize o banheiro que é destinado a tais pessoas. Como diz um amigo meu "nós só temos essa opção". Uma criatura, sem noção, ainda tentou entrar na minha frente dizendo que ela também tinha direito por ser idosa. As pessoas são canalhas mesmo ou então são extremamente ignorantes. Adaptado não é o mesmo que preferencia. E se você que me lê não entende essa diferença, vai continuar sem entender por hoje.
Na Concha antiga, havia um banheiro adaptado que guardava o material de limpeza, mas era possível utilizar. Inclusive, a chave ficava na mão de um funcionário que abria sempre que solicitado. Ana Paula talvez não seja dessa época ou não tenha competência suficiente para designar um funcionário para ficar com a chave.
Se você conseguiu chegar até aqui, eu gostaria que você me respondesse mais uma vez: Você senta na urina? Eu nem que quisesse pq preciso me apoiar no vaso para fazer a transferência, eu preciso sentar no vaso, eu preciso encostar no vaso. Você se molharia de urina Fernanda Tourinho, Rose Lima Lima Moacir Gramacho, Ana Paula e todos os responsáveis por esta situação?
Acessibilidade não deve ser pensada como arranjo. Acessibilidade deve ser pensada desde o início do projeto para evitar impedir a pessoa com deficiência de ter acesso aos seus direitos básicos, impedir que a pessoa com deficiência passe por constrangimento, perca sua dignidade. O que a Concha Acústica faz com o deficiente é tirar a sua dignidade. o que me dá mais raiva - e a palavra é RAIVA mesmo - é que todo mundo foi para casa dormir tranquilo depois de um show maravilhoso. Eu me corroí por dentro, eu adoeci, eu chorei, eu tremi como tremo até agora porque vocês não são capazes de pensar no básico, porque vocês não tem o mínimo respeito por nós. E não me venham falar que disponibilizam uma Van para me descer e subir na ladeira. Isso não é mais que obrigação. Acessibilidade não é favor, é LEI, é DEVER do Estado oferecer em todos os prédios públicos, pagos também pelo meu dinheiro. Por falar em Estado, cadê a SUDEF - Alexandre Baroni - que não notificou a Concha pelos absurdos contra as pessoas que vocês deveriam proteger?
Antes de terminar, gostaria de exigir que a Concha Acústica se retrate o mais rápido possível e dê um treinamento - no mínimo - razoável para seus funcionários não virem com justificativas vexatórias e pedirem para que eu pegue leve com vocês. Você não pegam leve comigo, nem com meus pares. Nos respeitem!!!!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Jardim de Judite

Já visitou nosso site com a trajetória dos 10 anos do espetáculo Judite quer chorar, mas não consegue! e seus desdobramentos?




terça-feira, 5 de abril de 2016

Delícias e belezas de Santo Amaro



Feirinha da Nova


O Jardim de Judite promoverá, no dia 16 de abril, a primeira edição da Feirinha da Nova onde haverá artesanato, culinária e espetáculos para toda família, das 13h às 19h, no bairro Nova Santo Amaro. O espaço pretende dar visibilidade à produção artística e gastronômica de Santo Amaro, reunindo trabalhos artesanais em várias técnicas, doces, salgados e no almoço além da tradicional maniçoba, serviremos ximxim de galinha.

Programação

13h - abertura
15h - apresentação da banda Rota Americana (Santo Amaro)
17h - 1/4 de Lembranças - apresentação do Grupo X de Improvisação em Dança (Salvador)

Quem for ao local, vai conhecer e aproveitar as novidades de:

Artesanato

Ana Rosa Freitas - miniaturas, bonecas de EVA e roupinhas de para cachorro
Arte de Avó (Consuelo Rocha) - brinquedos em feltro
Café Atruá - cadernos artesanais
Daniela Soares - bonecas
Dinorah Oliveira - variados
Fátima Tchan e Carla Estephânia - variados
Maine Jesus - imã e aquerela
Mosaico das Artes (Conceição Romano) - variados
Nei Lima - bolsas e colares
Gal Castro - variados
Gildália de Oliveira - artesanato em tecidos
Iraci Pinheiro - artesanato em tecido

Piju Pijaminhas - pijamas infantis
Shirley Souza - artesanato em papel

Almoço

Celma Nascimento - Maniçoba
Tânia Santos - Ximxim de galinha, feijão fradinho e arroz

Doces e Salgados

Bolo das Meninas - bolo
Carla Romano - quiche e bolo de pote
Doceiras de Santo Amaro (Silvia Santos) - doces
Dona Angelina - sequilho
Empadaria - empada
Linda e Ana Paula Monteiro - doces
Patrícia Titi - banana real e pastel

Bebida artesanal
Maine Jesus - Geladinho de cachaça

quarta-feira, 30 de março de 2016

Um de nós

Nesse momento, fico pensando qual a nossa responsabilidade em mais um crime contra a mulher. Nós que ensinamos aos nossos filhos serem machos para comerem a cabrita do vizinho. Nós que ensinamos às nossas filhas serem as princesas esperando seus príncipes. Um crime que tem em sua origem o machismo, a submissão feminina que não pode escolher largar seu "dono" porque ele pode matá-la se não obedecê-lo. Um crime que perpassa pela "inocente" diferenciação entre o rosa e azul. Fico arrasado pela situação desta família que eu conheço e estimo, mas me afundo em desgosto porque vejo que somos responsáveis por tudo isso, por perpetuar um entendimento heterenormativo sobre gênero, família, sexualidade, força. Eu quando sou a mulher que cuido da casa para o provedor descansar. Eu que não divido responsabilidades com minha mulher. Eu que não passo roupa, não coloco minha mesa. Eu que mando o menino engrossar o pescoço e a menina fechar as pernas. Eu que tantas vezes sou estas facadas, aos poucos, invisíveis, que vão matando constantemente todas elas.

Não era um marginal que acabou com ela, era o homem que ela amou, que teve filho e conviveu algum tempo. Não é mais um marginal na cidade, é um de nós. Um que frequenta a casa dos amigos, que dormia e acordava com ela. Que entregava merenda escolar. Que convivia com nossos filhos.

É um de nós.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Um Jardim para Judite

Espetáculo “Judite quer chorar, mas não consegue” comemora 10 anos

Em março, Santo Amaro receberá um Jardim para Judite para contar a história da lagartinha que conquistou a Bahia e o Brasil

foto Arthur Scovino

Criado em 2006, “Judite quer chorar, mas não consegue!” é um espetáculo de dança do coreógrafo-intérprete Edu Oliveira, conhecido como Edu O., direcionado ao público infantil, que trata poeticamente das transformações e perdas que enfrentamos ao longo da vida. Contada através de Judite, uma lagarta que recusa sua transformação em borboleta e prefere se acomodar no jardim por desconhecer o futuro, o espetáculo também comoveu e conquistou os adultos, que se identificaram muito com a lagarta Judite. “A história propõe uma reflexão sobre a dor e solidão dos indivíduos, numa sociedade contemporânea que procura padronizar as identidades e os desejos a partir de modelos hegemônicos. Talvez seja esse um dos motivos de identificação do público”, explica Edu.

Para comemorar os 10 anos de uma trajetória vitoriosa pelo Brasil e exterior, Judite vai ganhar um Jardim em Santo Amaro, sua cidade natal e residência onde Edu O. passou sua infância e adolescência descobrindo Judite. Entre março a junho, o quintal da casa 53 abrigará uma instalação interativa, intitulada Um Jardim para Judite, criada por Edu O. e pelo artista visual Valter Ornellas. Nele, crianças e adultos vão ter um verdadeiro encontro com o real e o lúdico através dos elementos referenciais da obra “Judite...” com cores, cheiros, sons, objetos e imagens que possibilitem uma experiência sensorial e estética a todos os visitantes.

O espaço também receberá oficinas e apresentações artísticas seguidas de bate-papo, realizadas sempre na segunda semana de cada mês. O Jardim ainda vai abrigar Encontros Aborboletados, promovendo uma reunião de artistas e grupos locais com artistas e grupos visitantes para trocarem experiências e realizarem propostas artísticas que dialoguem com a estética do espetáculo. 

O projeto é patrocinado através do Edital AGITAÇÃO CULTURAL - Dinamização em Espaços Culturais da Bahia, SECULT BA.

  
foto Lara Lins



Serviço

Lançamento Um Jardim para Judite

Performance de  Lívia Matos – A sanfonástica mulher lona
Dia: 05 de março
Horário: 16h
Local: Rua C., Casa 53 – Nova Santo Amaro (Santo Amaro – BA)

Programação Completa

MARÇO

Dias: 08 a 11
O que: Encontros Aborboletados com Arthur Scovino e Dinorah Oliveira
Horário: 09h às 11h30

Dia: 12 
O que: Judite e o Caboclo – performance com Edu O. e Arthur Scovino 

Horário: 17h

foto Felipe Vasconcelos

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Respeito é bom e eu gosto

Não escolhi ser artista, eu não sei ser outra coisa. Assim como não foi escolha ser gay, nem deficiente - este último em consequência de um vírus - no entanto, nos três casos, as pessoas parecem se incomodar com a vida que tenho.

Por ser gay acham que é opção, que não devo me expor e que não é necessário ficar mostrando em público afeto, trejeitos, alegria demais. Engrosse o pescoço, rapaz! Descruze a perna que você não é menina! Para que fala desse jeito?

O deficiente é sempre coitadinho, bonzinho, faz tudo bonitinho, engraçadinho, exemplo de superação, incapaz de escolher roupa, comida, incapaz de foder, chupar, gozar, impossível dar prazer, não pode sair sozinho - mas tá é independente! - tem sempre que dar satisfação sobre o que vai fazer, para onde vai sair e tem que ser grato porque todo mundo quer ajudar. Como dizia uma propaganda: Carlinhos não precisa de ajuda, Carlinhos precisa de respeito!

Bem, e o artista, coitado? Esse é miserável, preguiçoso, não faz nada, vive encostado na família. A primeira coisa que ouvi quando aos 18 anos decidi fazer o vestibular para Artes Plásticas foi: E isso dá dinheiro? Não foi uma, nem duas, nem três vezes. Vai e volta esta pergunta ecoa no espaço e você olha constrangido pela falta de educação e delicadeza do outro. Preciso provar isso a quem? O que eu ganho ou deixo de ganhar só diz respeito a mim. O que compro, como vivo... Por que se incomodam tanto com nosso estilo de vida? Mas essa intromissão travestida de preocupação é constante e agora vem acompanhada por uma sentença: Vá fazer concurso!! Todo mundo pensando na minha estabilidade, a vida não está fácil, veja nãoseiquem que está rico, morando numa casa linda, e nãoseiquemzinha viajando direto, está muito bem de vida e aquele outro comprou um carrão, vive dando presentes caríssimos para o filho...

O "estar bem" dos outros é medido pela quantidade de dinheiro, pelas coisas que compram e possuem. Uma lógica bastante materialista - boa para quem se importa com isso - mas será que todo mundo quer viver bem assim? Não há outras maneiras de se passar a vida? Se eu trabalhasse como todo mundo que "vive bem" eu não teria conhecido a China, ido quase anualmente para a França, passado dois anos entre Salvador e Londres, não teria compartilhado meu pensamento com milhares de pessoas que já me assistiram e demonstram ainda interesse pelo que eu faço.

Sou feliz por tudo que sou, conquistei, fiz e continuo fazendo. Dispenso a intromissão e grosseria em você achar o que é certo ou errado na minha vida. Se um dia, eu não mais estiver feliz, saiba que isso não vai te afetar, eu darei meus pulos e me responsabilizarei pelas coisas que sou.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Reencontrar Judite

Reencontrar Judite é um misto de euforia, medo, gratidão... Imaginar que começamos a celebrar seus 10 anos, lembrar de tantas coisas que vivi e conquistei com e por causa deste projeto... é isso... tudo em Judite vira reticências porque não tem fim, não tem tamanho. Sempre por vir...

foto Lucas Jampietro

Encontros de Domingo - Espaço Xisto Bahia/Salvador

Judite quer chorar, mas não consegue! com tradução em LIBRAS

13 de dezembro
11 horas
Passaporte adulto + criança = R$ 20,00 ou R$ 20,00 e R$ 10,00

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Mau humor

Desci o elevador em silêncio vendo apenas o "cucuruto" da minha cabeça no espelho. Não pude ver meu semblante que eu imaginava cansado, olhos caídos e o bico mais avantajado do que o de costume. Quando eu fico sério meu bico cai. Não estava chateado, era preguiça, misturada com a chatice da chuva, a humidade.... ahh, sem explicação. Estava assim por estar. De gorro, calça grossa e casaco, saí do prédio quase sem querer. Entrei no carro depois uns abraços sinceros e o desejo em estar junto, mas em silêncio. Como ficar em silêncio quando não se tem intimidade? Enquanto o carro seguia, eu via as gotas escorregando pelo vidro e lembrei que, quando criança, encostava o nariz e imaginava lágrimas no rosto.

Esses dias assim molhados me deixam de mau humor.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Minha amiga Tom

Eu também tive um Tom na minha vida e era uma menina. Eu fiquei hospedado em sua casa para me recuperar de uma cirurgia. Eu tinha 8 anos. Eu me chamava de eu e ela não falava na primeira pessoa. Isso era o que mais eu achava engraçado. Não havia um pensamento de achar o outro diferente, talvez porque eu também era o diferente desde o meu primeiro ano de vida, mas acredito que não era apenas por isso, pois minha irmã também não lidava com minha amiga Tom como se ela fosse diferente. Ahh, não sei pensar nisso direito porque minha irmã convivia comigo que também era diferente e isso talvez a fizesse pensar diferente das outras pessoas. Aliás, sempre entendemos, desde cedo, que todas as pessoas são diferentes. Nós a achávamos muito inteligente e esperta. Vivia fechada no seu mundo como eu ficava no meu quando brincava com minha coleção de playmobil. As coisas eram naturais. As coisas eram como eram e pronto. Eu sinto saudade daquela época. Sinto saudade das pizzas, das brincadeiras no apartamento enorme, da piscina, da primeira vez que entrei num pula pula e percebi que ali não era brinquedo para mim porque não conseguia me impulsionar apenas com as mãos e fiquei com medo daquela coisa gigante que ventava dentro. Sinto saudade de sua irmã mais velha, do fusca ou seria uma brasília? Minha amiga Tom encasquetava com o gesso na minha perna e quando dávamos um vacilo, olha ela andando por cima do gesso. Temos mais ou menos a mesma idade, mas ela era uma criança grande e linda. Invocava também com os bobs de minha mãe na cabeça. Eu amo minha amiga Tom até hoje por tudo que ela representou para mim naquela época. Hoje, eu queria dar um beijo naquela menina que ela ainda é para mim.