sábado, 3 de janeiro de 2015

O homem que desabotoava os hábitos

Todo dia partia com o mesmo sorriso, um beijo, dedos alisando a cabeça, atravessava aquela porta do meio com grades e vidro, passava pelos lírios e virava à esquerda até desaparecer na esquina da banca de revistas.

Para não ter do que lembrar quando ela partisse, decidiu afrouxar os botões da camisa engomada. Começou a se despedir sempre de forma diferente e a despetalar algumas flores do vaso. Mudou os móveis de lugar e para nunca mais haver o lugar dela, em cada refeição brincavam de ciranda ao redor da mesa. Às vezes, sentava no chão, em cantos distintos da sala. Buscava meios de alterar a hora do sono, a luz da escrivaninha, o sabor do café, a cor da caneta, o molho da salada. A sopa da noite passou a frenquentar o almoço e a fazer surpresas no dejejum. O banho podia se dar no quintal ou esfregando toalha pelo corpo e até em jato de mangueira na garagem. A casa foi ficando vazia e com mais portas do que ele havia percebido em todo o tempo em que habita o lugar.

Um dia, já sem ela, perdeu-se no labirinto de portas sem identidade que compõem o ambiente. Ele que sempre se interessou por fechaduras de portas abertas, não sabia, agora, o que abrir e mesmo sem algo específico que o fizesse lembrar dela, era impossível não chorar com a música que não saía de sua cabeça. E há tempos não consegue parar de bailar no salão da casa de cadeados trancados.

foto Edu O.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Lembrando coisas (boas) de 2014

Todo final de ano é assim, sempre gosto de lembrar as coisas boas que me aconteceram durante o ano que termina. Fazendo um balanço profissional das coisas que deram certo e outras que nem tanto, destaco algumas experiências que passei e marcaram positivamente 2014, um ano difícil para os artistas em todas as instâncias (municipal, estadual e federal).

Mas como não abrir um sorriso largo ao lembrar da visita de Judite ao Caboclo de Arthur Scovino na Bienal de São Paulo? Por este encontro, pelo Corpo Perturbador em SP, por Ubatuba com Cléa e a galera da gincana, por estar mais próximo de Fê Tim Tim, por tantas coisas lindas e demonstrações de amor infindáveis que recebi nesta viagem.


O encontro com Claire Cunningham, Luke Pell e Alana Murinelly que me abriu o olhar para coisas da cidade-mim, me acenderam faróis. E com ele a viagem a Sto Amaro, Cachoeira, a tarde no Humaitá com Lulu, no Sto Antônio com Iarinha.



O ano fechou em grande estilo, não querendo acabar com o Euphorico e sua potência de ser grande embora aqui dentro, silencioso e tão forte. Pelos abraços, sorrisos, toques, comidas, cigarros e cafés. Pelo Rio-Sto Amaro-Jequié. Pela cumplicidade no entendimento da arte, do que se quer, do que se vive.



Impossível não lembrar do Despertando Judites em Sto Amaro para mais de 300 crianças, ao longo de uma semana. Pelo esconderijo da lagarta, pelos sons, pelas sopas, por me permitir estar em minha terra, por Cate.


O Grupo X retornando ao seu começo com as pesquisas do Dançando Godot. O encontro com Cyça, Nath, Ana Luiza, Claudinei.


Marilyn me presenteando com o Prêmio do Salão de Artes Visuais da Bahia, em Camaçari.


Os encontros com a turma d'O Corpo na Educação, com Ana Luiza Reis. E o lançamento do audiolivro em Paris? É luxo só!

Obrigado a tod@s que estiveram por perto e que continuarão vibrando, dando força ao meu trabalho. Até 2015! Muito obrigado. Evoé!


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O que se vê ou sobre os rastros-traços

De tudo o que ficou, são os rastros-traços que fissuram a pele. Sãos as mãos que alisam. O riso que contorce. Os verdes, os azuis, os vermelhos. São os sabores que gozam na boca caipirinha de limão e morango, café e cigarro. São as pequenas mortes que compartilhamos em hall de hotel, corredor de casa, praça, restaurante. E os encontros... tantos, muitos, vários. Rio, Sto Amaro, Salvador, Jequié.

Quando eu fecho os olhos me aparecem vocês que não estão aqui quando os abro. Deveria escrever o que vejo, mas me vem apenas saudade.

foto Diane Portella - Euphorico Aqui Escrive - uma retrospectiva

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cesta do piquenique

Amizade é tesouro raro. Em meio a muitos tesouros diferentes, cada um encontra um jeito de ser raridade. Como me faz bem pensar nos amigos que encontrei/encontro pela vida! Como me faz bem saber que continuo aberto e sentindo prazer em encontrá-los. Como sou grato por cada um que tenho, por cada um que tive. Amizade, amor... para mim não passam. Transformamos a maneira de lidar com o outro, a vida vai trazendo diferentes abordagens para o mesmo tema. Uns se mantém cada vez mais próximos e sabem o que temos comido, a festa que temos ido, a doença que atrapalhou a reunião, o riso com a besteira da televisão ou o choro com o resultado de exames. Alguns não sabem de detalhes, mas entendem o conjunto da obra e se fazem presentes em pequeninas-grandes coisas. Outros não fazem mais questão de nada mesmo, mas não deixam de deixarem rastros. Olho com cuidado para cada um que me toca, afeta... sinto muito pelas vezes que não pude corresponder ao que desejaram de mim, mas busco sempre ser inteiro, verdadeiro, até mesmo nas pequenas mentiras, aquelas que se forem verdades o outro não entende, como por exemplo não querer falar ao telefone e mandar dizer que está dormindo. Eu não me importo quando me dizem que não querem falar, mas tenho amigos que se zangam, então prefiro mentir para não zangá-los. Depois, quando estou de bom humor e se ele continua querendo falar, gargalhamos juntos. Gosto quando não se ofendem com minha necessidade de ficar sozinho, quando dou aquela morrida necessária. Também compreendo, não sem tristeza, que há os que não voltam mais, os que foram. Aqueles em que se rompe a tênue linha que tecemos juntos até um certo tempo e depois se parte. Aí, chegam momentos de coração partido, doído e lembranças. Aí, chegam os amigos que continuam e te enchem de alegria porque basta tê-los para isso acontecer.


Estou em tempos de saber o que sobrou na cesta do piquenique.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

festa euphorico





29 de novembro de 2014, dia
de encontro com amigos franceses e brasileiros para comemorar os 10 anos de
Euphorico - inetercâmbio cultural entre o Grupo X de Improvisação em Dança
(Brasil) e a Cie Artmacadam (França), numa festa com pocket show da cantora Sandra
Simões, no Café da Walter (Barris), às 19 horas.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Carta de um artista triste


Quem me vê sorrir, alegre, postando divulgação de meus projetos, deve pensar que está tudo bem. Os que sabem o que se passa devem achar que eu estou louco. O fato é que me encontro... e aqui abro um parêntese para falar sobre o ME quando na verdade deveria falar NÓS porque projetos artísticos nunca são de uma só pessoa, há uma equipe, um grupo que se movimenta para as coisas darem certo e inclusive o público que pega o bonde na última estação. Então, a partir de agora quando eu disser EU-ME-MEU, entendam NÓS-NOS-NOSSO.

Retomando a escrita.

O fato é que morro de vergonha de falar sobre isso. Dá uma sensação de fracasso, ao mesmo tempo em que dá uma puta certeza de que somos foda no que fazemos. Porque há 10 anos produzimos um projeto maravilhoso, um encontro entre diversos artistas, de diversas áreas: dança, música, teatro, artes visuais, audiovisual, luz, produção, fotografia... reunindo gente do Brasil, França, Itália, Polônia... Só por alto, contando aqui nos dedos, já passaram mais de 25 artistas pelo Euphorico que é um intercâmbio entre o Grupo X e a Cie Artmacadam, aliás, mais do que isso, é encontro, viver junto, saber lidar, dançar, estar... não cabe nas caixinhas de definições como as bailarinas que rodopiam depois das cordas em caixinhas de música. Dá para ver isso em fotos, videos, dá para sentir quando se chega perto.

O fato é que há 10 anos estamos construindo uma bela história na Dança, na vida. Há 10 anos produzimos, anualmente, um projeto internacional alternando apresentações e workshops e performances em rua e conversas, no Brasil e na França.

Porém, aqui no Brasil NUNCA recebemos nenhum recurso financeiro para a produção, para pagar aos artistas e técnicos que trabalham conosco. Recebemos algumas vezes apoio na hospedagem e poucas vezes para a alimentação e recebemos também passagens para ir para lá. Mas, como malucos, NUNCA desistimos e continuamos recebendo os amigos porque nos interessa o encontro, o abraço, o afeto... é sobre isso que falamos também no Euphorico. AFETO! E como me afeta saber que ESTE ANO NÃO RECEBEMOS NENHUM APOIO para sequer colocar nossos amigos num quarto confortável para dormir. Inscrevemos no Calendário das Artes, nada, FUNARTE, nada, Prefeitura, nada, nada, nada, nadaaaaaa... Somos nós nos bancando mais uma vez.

Eu acho que esse povo deve pensar que se nós conseguimos realizar, todo ano, sem dinheiro, é porque não precisamos. Só pode ser! Ou então devem pensar "o que isso importa?". Importa na medida em que não há nenhuma iniciativa desse porte que dure tanto sem ter tido NUNCA, NENHUM apoio financeiro. Sei que existem projetos de muitos anos, mas estes recebem dinheiro para serem realizados.

Enfim... o saco encheu e esta carta é para compartilhar meu coração apertado de vergonha por não ter condições de receber nossos amigos como eles merecem, como qualquer artista que vem trabalhar merece ser recebido. É para dizer que precisarei da presença de vocês e do apoio na divulgação porque não tivemos apoio nem para isso. É para dizer que desejamos nos encontrar para falar de amor, toque, generosidade, amizade, abraço. É para dizer que apesar de tudo estamos aqui e vai ter festa! Talvez seja também para pensarmos melhores meios de colocar o bloco na rua... falando nisso, só consigo pensar no coletivo que SOMOS NÓS.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O que Judite me deu

O que Judite me deu? Tantas alegrias, tantos voos, tanta gente querida: Paloma Gioli, Nei, Fau, Valter, Keu, Cate, Mili, Moa, Cintia! Me deu música e dança, David, Fafá, Deco Simões, Sandrinha, Andrea Daltro, Rick, Joana, Marcela, Márcia, Ceumar e Flowers. Me deu um audiolivro livro e uma parceria sonhada com Malu Mader. Me deu Caco, Cassio, Joana e Samuca. Me deu crianças. Me deu o Candoco e a China. Me deu Tempete e Cosme e Damião Duo. Me deu Festival Vivadança, FILO, Corpos Nômades, circulação. Me deu prêmios e editais. Me deu o Despertando Judites. Judite me deu a mim mesmo em momentos de desistências. Me deu tintins, me deu chás, choros e risos. Me deu Caboclo e Bienais. Me deu amig@s. Judite me dá alegrias. Amanhã, ela me dará novamente o sentido de existir, sonhar, viver...


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

São Paulo, o Caboclo, Judite e Saudades

São Paulo é sempre uma experiência extasiante e forte. Não lembro de ter ido a Sampa sem ter voltado com coração pequeno, sentindo falta de algo que não sei explicar ao certo. Esta última viagem não foi diferente e talvez tenha sido das mais potentes e arrebatadoras por diversos motivos: Corpo Perturbador, Pilantragem, rio, lago com Cléa, nossas Boduases, mares de Ubatuba, os ares de Ubatuba, aquele verde, os sabores de Neuza, Talitita e a vizinhança, Fê, noites mal-bem dormidas,  Ed's, Samuca, Rachel, marcela, as crianças, meus amores todos que se concentram na Herculano, o vinho até tarde no 06, violão, Princesa, Confesso, Judite, Arthur, Bienal, Caboclo e penas rosas, doces para Cosme e Damião, abraços infinitos.... Infinita é minha gratidão e sem fim é o meu amor. Infinito é o desejo de ficar mais um pouquinho naquela realidade paralela em que passo meus dias junto àquelas companhias.

Voltar só é feliz pelo reencontro com meus aqui: a conchinha dormideira, o café e o sofá maternal, as conversas com a irmã, as brincadeiras com meu menino, meu povo santamarense, minha praça e meu arrocha... É que não tenho visto muito os amigos e pena que meu povo não viu Judite receber aula de vôo em plena 31ª Bienal de São Paulo. Foi assim:

fotos de Felipe Vasconcelos

Visitamos a Casa de Caboclo, emocionados com todo interior daquele menino de cidade grande. Suas penteadeiras e cristaleiras cheias de afetos, infusões, Gals, meus bens e meus males, cachaças, adivinhações, balões e canelas, esteiras e baús, sonhos de penas rosas e capas amarelas, samambaias e lagartas. Então, o Caboclo começou a dançar e a lagarta seguiu seus passos. Daí, seguiram caminhando pelos pavilhões de corredores largos, com obras de artes gigantescas para aquela lagartinha miúda que se esfregava naquele chão frio, vendo os pés do mestre orientando o caminho. De vez em quando, o Caboclo parava, enchia balões que flutuavam no ar com o peso calculado de pedaços de canela. Judite olhava estupefata aquela possibilidade de vôo e brincava com os balões como brincara com as pipas e sonhava com as asas. O Caboclo de olhar generoso e sorriso delicado, contemplava aqueles momentos que quase fizeram a lagarta chorar. Ela que nunca conseguiu...


Desceram a derradeira rampa e se posicionaram ao centro do andar de baixo. Brincaram de voar mais um pouco e a lagarta foi se enrolando, buscando casulo para se espalhar. Mostrou sua vida, seu tempo na janela, fez tim tim, esbanjou a amiga pipa, as flores, o jardim. Sua vida, então, começou a ser adocicada com balas para Cosminho. Era o Caboclo que a transformava num altar com a ajuda de um erê que veio sonhar junto com Judite o sonho que foi do Caboclo. Uma nuvem rosa pairava sobe a cabeça da lagarta enquanto esta dançava imaginando-se solta no ar.

Ahhh, e La vie en rose tocava sem parar!






terça-feira, 12 de agosto de 2014

Para Maria da Graça (de Paulo Mendes Campos)

    Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
    Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
    Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
    A realidade, Maria, é louca.
    Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?"
    Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
    A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
    Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
    Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
    A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gato se fosses eu?"
    Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
    Disse o ratinho: "A minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
    Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo" Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
    E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor`.
    Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
    Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".

    Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça