Odete



Assim como nos passaportes, nossos corpos retornam de uma viagem carimbados de experiências que se mantêm e determinam nossos olhares, sensações, percepções, a partir do acesso a territórios desconhecidos, principalmente aos territórios internos que nos resignificam. Ao chegarmos a algum lugar chegamos carregados de passado, de experiências adquiridas durante toda a vida e até mais, trazemos nossos antepassados, histórias de família, dos lugares passados. Nos pés ficam os calos e o pó da terra por onde caminhamos. Na mente ficam registradas as imagens, os odores, os sons, as histórias que encontramos em cada esquina, em cada rua, casa, monumento, pessoa. Ao retornarmos (porque sempre se retorna), aquele lugar visitado, introduzido, apropriado, nos segue e acompanha em outras freguesias. Uma viagem que independe de quilometragem, distância. Seja na França, São Paulo, Santo Amaro ou simplesmente ali na esquina. A todo momento somos preenchidos de outro. Um outro que desconhecemos, mas que nos afeta. Informações que absorvemos e vão sendo traduzidas corporalmente na postura, no modo de andar, comer, falar, gesticular, enfim, no nosso modo de agir.

O espetáculo ODETE, TRAGA MEUS MORTOS é inspirado numa situação vivida por mim, numa viagem a França, onde num almoço em casa de uma família tradicional, na hora do café, depois de todo ritual da refeição francesa, a matriarca pede a empregada: “Odete traga meus mortos!”. Incrédulo, com expressão assustada, fui informado que este pedido tornou-se habitual daquela senhora que lê diariamente a parte de óbitos do jornal enquanto toma seu cafezinho. Sua preocupação é saber se algum conhecido faleceu e observar a forma como foi escrito o obituário, sempre discordando e dizendo que não quer o seu daquele jeito, então começa a descrever como gostaria que divulgassem sua morte, a foto que deve ser colocada, a roupa e como as pessoas devem agir no seu funeral. Um fato aparentemente triste torna-se o momento mais engraçado do dia da família que passa a lembrar de histórias da vida e de pessoas que passaram por ali. A morte perde a carga de sofrimento, cedendo espaço para lembranças de vidas cheias de experiências, como são todas as vidas. Para aquela senhora, o falecimento do outro possibilita a reflexão sobre sua própria vida, mesmo que este outro seja um desconhecido e que sua história não tenha relação com a dela.

A partir desse fato, desenvolvi o projeto tendo como convidado o também coreógrafo/dançarino Lucas Valentim, para construirmos juntos em processo colaborativo e refletiremos sobre os ritos de passagem, o partir, ausência e presença. O lugar do outro em nossas vidas, nossos mortos (pessoas e situações passadas) marcando nossos corpos, nosso estado. Tudo reverberando em nós até mesmo quando a memória não é ativada.

A morte em ODETE, TRAGA MEUS MORTOS representa, portanto, essas ausências de pessoas, lugares, situações, objetos.








Fotos de Alessandra Nohvais

ODETE, TRAGA MEUS MORTOS é um projeto idealizado e produzido por Edu O. que assume, também, em parceria com Lucas Valentim a coreografia e interpretação deste espetáculo, Davi Maia é o responsável pela concepção da luz, Nei Lima assina o figurino e a assistência de produção e SomdoRoque a construção e execução ao vivo da trilha sonora. As fotos são de Alessandra Nohvais.

Prêmios e Editais
- Prêmio Festival Vivadança – Salvador – 2010
- Edital Quarta que Dança 2012 – Fundação Cultural do Estado da Bahia
- Demanda Espontânea 2011 – Fundo de Cultura do Estado da Bahia (circulação com o projeto Encontros na mesa de chá)

Apresentações
- MiniFestival De Solos e Coletivos – Salvador - 2012
- Plataforma Internacional de Dança – Salvador – 2011
- Palco Gira Dança – Natal - 2011
- Repertório VAGAPARA – Salvador - 2011
- Seleção para o Centro Coreográfico do RJ – Rio de Janeiro -2010
- 1º Encontro de  Dança Inclusiva. O que é isso? - Salvador – 2010
- Festival Curta Dança as 6 no Pelô – Salvador – 2010