quinta-feira, 17 de julho de 2008

O menino vento

Nasceu do cruzamento entre o inferno e o céu
Não havia sentimento,
Não havia a tal da paixão entre os dois
O encontro se deu num dia em que a terra diluída, molhada, lamacenta,
Foi entrando cada vez mais em si mesma
Como um líquido num funil
Cansada e sem forças chegou ao fundo
Encontrou o inferno
Rígido, quente, preparado para o bote
Não houve beijo, carinho, nem doces palavras
Apenas um impacto forte, como uma explosão, os uniu
Originaram, assim, uma vida que emergiu
Era um menino lindo,
O Menino Vento!
Não parava quieto,
Não parava de sorrir,
Tinha muitos amigos,
Tinha muito o que fazer
Falava coisas bonitas do que via pelo mundo
Acreditava nos homens, seus companheiros,
Sonhava em ser um deles
Que pena!
Cresceu o Menino Vento
Sem que ninguém notasse
Percebia agora a estranheza da vida
Não entendia a fome, a guerra,
O ódio desmedido
Chorava ao ver o amor renegado na esquina
Pedindo abrigo aos corpos vendidos baratos demais
A correria pelo dinheiro, não entendia!
Não compreendia a infelicidade das pessoas
Já que eram elas mesmas quem a provocavam
Perguntava sempre:
“Se não querem o mundo assim, por que o fazem desse jeito?
Se a vida está ruim, por que não seguem por outro caminho?”
O Menino Vento ficou desiludido
Dividido em suas questões
O que aprendera até então, de nada valera?
Não corria mais, não falava,
Isolou-se bem no alto para pensar melhor
Vendo o mundo lá de cima poderia encontrar respostas
Transformou-se no Homem-Lua
Porém, dedicado como sempre,
Não abandonaria sua mãe, não a deixaria sozinha
Num dia de muita tristeza, quando chorava demais,
Transformou-se num rio e o Homem-Lua, agora
Também era o Homem-Água

Enquanto Lua, vendo o mundo lá do alto, sábio ou não, está num patamar elevado. Vê outro homem minúsculo à sombra de uma árvore. O que faz esse homem? Por que dança no escuro? Por que brinca sozinho? O Homem-Lua, lá do alto, não ouve o que fala, não sabe o pensa, apenas aprecia os gestos bonitos, a solidão do outro homem. Não pode descer para ajudá-lo, mas se não pode descer, como subiu? Para quê? é condição humana o querer elevar-se, mesmo sem saber para quê. Será loucura?Enquanto Água, rastejando pelo mundo, moldando-se ao terreno, sábio ou não, está no mesmo patamar que nós. Vê o outro homem brincar próximo ao seu leito. O homem de qualquer cor, brinca, sorri, dança ao lado de uma árvore, sua amiga. A princípio pensamos que está sozinho, mas como se tem a árvore? O Homem-Água quer brincar com ele, quer fazer parte de sua vida, mas não pode mudar seu caminho, não pode mudar seu rumo. é condição humana seguir o fluxo da vida obedecendo as fendas do terreno, desviando apenas o olhar, às vezes seguindo olhando para trás. Para quê? Será loucura?

Um comentário:

maria guimarães sampaio disse...

estou por aqui, acompanhando.