terça-feira, 13 de abril de 2010

Quizila com a imprensa


Qual a dança que querem me ver fazendo? Confesso que estou ficando estressadinho com a imprensa que me procura para falar do meu trabalho, mas na verdade não querem me ouvir. A mídia quer a espetacularização da deficiência e eu quero respeito pela minha pesquisa, meu trabalho, meus projetos. Nunca nego que tenho deficiência e tenho consciência que conquistei muitas coisas por esta condição física, assim como poderia conquistar sem ela.

Minha prifissão não é DEFICIENTE, minha profissão é DANÇARINO. Quem dança não é a cadeira de rodas e repórter nunca entende isso. Não sou Luciana de novela, não quero comover com discurso raso, não sou exemplo de porra nenhuma. Tenho mau humor, não sou feliz todos os dias, tenho alguns preconceitos, não como cebola e alho, sou crítico, intolerante.... Gosto dos amigos, adoro Adriana Calcanhoto, Cazuza, Jussara Silveira, Los Hermanos, tenho colocações sobre o mundo, respeito os outros, gosto de Coca-Cola e chocolate BIS....

Enfim...... sou gente e não cheguei na dança agora e nem sou criança para tratarem meu trabalho com infantilidades. Pesquisem minha vida, minha história, vejam meus espetáculos. Conversem comigo. Não quero mais uma vez repetir a mesma historinha que ano a ano eu repito sobre a deficiência na minha vida e a dança da cadeira de rodas. Dança da cadeira? Isso é uma brincadeira que fazíamos há muito tempo. As reportagens trazem um discurso que eu não comungo, que eu não compactuo. Pensei em me calar a partir de agora, mas se eu não falar o angu pode engrossar, né? Enfim....

Eu danço porque quero colocar minhas inquietações, minhas alegrias, meu modo de ver a vida, a morte, a solidão e quam sabe o mar. Não danço por ser deficiente. É só ver meu trabalho, nem precisa me perguntar nada, mas se quiserem saber quem eu sou:

Sou artista e isso, para mim, já é imenso!

Quizilar:
V. t. d. 1. Fazer quizila a; importunar, aborrecer, zangar.
V. int., V. p. 2. Incomodar-se, aborrecer-se, irritar-se, zangar-se.

11 comentários:

Chorik disse...

Estou contigo. Você é artista.

Neca disse...

é, é muito chato isso.

existe da parte da imprensa (mesmo a especializada) uma ignorancia imensa, primeiro, do que é ser artista, eu acho. a gente é sempre obrigado a se encaixar em algum nicho inteligível pra poder ganhar espaço de divulgação. e vc fala uma coisa e eles literalmente entendem e dizem outra.

no caso de artistas com deficiência (é bom frisar que nem toda a pessoa que faz arte de vez em quando é artista, tenha ela deficiencia ou não), há que sempre jogar nesse limiar entre cavar sim um espaço por conta mesmo dessa idéia de compaixão equivocada (que só contribui para separar e não para integrar), ou seja, usar dessa "peninha" pra ter espaço pra ser visto, nem que seja por alguns, ou de vez em quando bater de frente antes de mais nada, por exemplo quando de repente só compram seu espetáculo se for para o evento X do dia do deficiente, ou coisa parecida...

eu trabalho com grupos mistos de deficientes e não deficientes, e sempre esbarramos nesse mesmo problema. a imprensa parece que não quer escutar outra coisa que não o que ela já quer dizer de antemão: "que bonito o esforço deles!", "essas pessoas especiais são tão lindas..." e finalmente: "a gente é tão legal de dar um espacinho pra eles fazerem essa dancinha, né?"...

mas abrir picada com facão é assim mesmo, edu. vem umas folhas na cara, tem lama, coisas que te picam e tal...vc e a estela lapponi são dois artistas abrindo seus espaços aqui no brasil e eu sou muito orgulhosa de ser parceira de vcs e de saber que vcs são tão humanos quanto eu (ou talvez sejamos especialmente loucos!), e que a gente ainda pode fazer muita coisa legal juntos.

clenio disse...

é isso aí amigo! roda a baiana rs. bem que podiam fazer uma matéria com você sobre a insensibilidade da imprensa perante o artista. deixa o caldo engrossar meu lindo, vc é fantárdigoooo!... parabéns pelo sucesso de odete, quero muito desfrutar me da sua companhia. bjs

Um Casal na Cozinha disse...

Ô bichinha danada esta tal de "impressa", colocam àquilo que querem que os outros leiam, escutem ou vejam... são imaturos! O que custa serem puros e reais, simplesmente originais ??? Existem exceções, sei, mas tem horas q a ignorância fala alto demais e não deveria, eu tb tenho minhas quizilas com ela, uso sempre um chinois, rs... (utensílio da culinária parecido com uma peneira). " O Chinois é ideal para conseguir um creme liso, homogêneo ou um purê sem pedacinhos. A peneira não aguenta tanta pressão na hora de espremer o molho. Além disso, o chinois deixa o caldo mais concentrado e saboroso." Dito pelo chef Eric Berland.

Tô com muita vontade de ver ODETE, não vejo a hora... talvez sexta, vou me programar, Bjos!!!

Lorena disse...

A-R-R-A-S-O-U Lu(luuuu hahahahaaaa)!!! Imagino como deve ser mesmo um porre ter que falar disso a todo momento, quando tudo que você é, é tão maior que a deficiência. Manda eles deixarem de chacho Lu! hahahahahaaa

Bernardo Guimarães disse...

se uma duzia de "jornalistas" for lhe entrevistar, todos se prenderão à deficiencia, sabe por que? é mais fácil escrever sobre isso, a deficiência é mais simples que a arte da dança. quando lhe perguntarem muito sobre isso, faça cara de paisagem e responda outra coisa, como emocionar as pessoas com a dança, por ex. eles vão achar vc meio doido e, por hora, esquecerão que é deficiente. convidar um para dançar tambem pode ser interessante!

Gerana Damulakis disse...

Não tenho dúvida: vc é artista, dança, escreve, cria, enfim.
A ignorância me enraivece. Fiquei com muita raiva.O problema é que não entendem arte.

Ludmila disse...

Du, vc é artista e é um puuuuta artista. A imprensa n tem como mudar isso, basta conhecer Judite, Odete, q confesso ainda n conhecer,e outros trabalhos seus, para ter certeza disso. bjos amore

I.Moniz Pacheco disse...

Voce é maior que eles. Voce é maior que tudo isso.
Infelizmente faz parte da divulgação o contato com a imprensa, e já que é inevitável, a sugestão de Bernardo é perfeita!

Paula disse...

Também ADOREI as sugestões do Bernardo! Reservo-me apenas o direito de discordar de alguns quanto à ignorância e à imaturidade da imprensa: não há muito de ignorante e de imaturo em quem faz a notícia. Há, sim, um planejamento prévio, uma estatística do que vende e um controle sobre as formas de pensamento e visões de mundo. Há uma ideologia que utiliza o poder midiático e que diz aos povos do que gostar e o que repudiar, a quem temer e a quem amar, que fala com sutileza e compõe representações e preconceitos. Isso é proposital, como se compaixão fosse mudar o mundo e dar acessibilidade ao cadeirante ou visibilidade ao pobre, ao negro, à mulher. Continue quizilando sim, que por aqui tem gente pra caramba engrossando esse caldo!

Catarina Gramacho disse...

Não combina caldo ralo com vc!
Sugiro vc fazer o teste do sofá, quer dizer, da cadeira com eles antes de cada reportagem!rsrsr Quando experimentarem vão entender quem é que dança!
Beijo