sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cordeiro que me deu

Cordeiro que me deu

Tira este pecado de mim
Este desejo teu
Esta traição

Cordeiro que me cedeu

Livra-me de todo mal-olhado
Faz-me desejado
Tira este complexo de rejeição
Compartilha tua hóstia sangrada
Seja fruto maduro para eu saciar o meu imenso amor
Embriaga-me com teu sangue(saliva)
Água-benta da boca
Seja meu pão de cada dia e noite
Lambuza-se com a minha papa
Meu Papa, me papa a língua, o corpo nu

Cordeiro, o que te deu?

Volta, não vá assim!
Ainda não rezamos do quarto, o terço!
Não pagamos da dívida, a 2° via, cruzes!

Cordeiro, você me esqueceu?

Ressuscita na minha cama
Olha-me desconfiado
Retorna às minhas vistas
Levanta este coração aleijado

Eu oro para todos os meus bacos, meu Deus!
Para que todos voltem logo:
Meus Vals, meus Seans, meus Keus

Cordeiro, você me fodeu!!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Casa de Massagem - Herculano Neto

CASA DE MASSAGEM
Herculano Neto

Sou atendente de uma casa de massagem no Centro de Salvador há seis meses. Minha família acredita que trabalho como doméstica numa casa de família, mas na verdade ofereço serviços sexuais rápidos e baratos. Tudo é muito simples: os clientes tocam a campainha, encontram dez garotas trajando lingerie, escolhem a que desejam, depois pagam e vão embora, como se tivessem acabado de sair de uma lanchonete.

Hoje, observando pelo olho mágico, tive a impressão de que havia um homem com um bebê. Quando abri a porta, descobri que ele carregava o irmão de dezenove anos, que não possuía nem braços ou pernas. O homem disse que era aniversário do irmão e queriam comemorar. As meninas, assustadas, baixaram a cabeça com receio de serem contempladas; eu não – talvez por isso ele tenha me escolhido.

Dentro do quarto, tentei puxar conversa, descontrair o ambiente, mas ele não dizia nada. Então, tirei sua roupa cuidadosamente, segurei seu torso como se fosse uma boneca (ele era mais pesado do que aparentava) e o coloquei numa posição que eu imaginava ser a mais apropriada para o ato. Foi a primeira vez que gozei no trabalho.

A segunda versão deste mesmo microconto está no blog O Corpo Perturbador.

No mês de Agosto o blog do Corpo Perturbador realizará um concurso de MICROCONTOS DEVOTEES. Na verdade, se trata de uma brincadeira onde pretendo estimular a todos pensarem em situações em que o tema esteja inserido. Não haverá julgamento, nem o melhor, nem o pior. Para mim é importante pois as situações criadas para os contos podem me estimular na coreografia, a pensar em cenas, ao mesmo tempo em que fortalece a participações dos visitantes no blog.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O caso Monga (da série retomando o passado)

Como todos sabem, somos de Sto Amaro (Graças a Deus e a Nossa Senhora da Purificação e ao próprio Sto Amaro!) e todo mês de Janeiro começa a novena em louvor à Padroeira que é festejada dia 02 de Fevereiro. Época de sairmos com as melhores roupas, reencontrarmos amigos, vermos a cidade cheia, brincarmos no parque de diversões que chega enfeitando a praça.

Quando eu era criança e não usava cadeira de rodas, me locomovia de braço em braço e o melhor de todos sempre foi o de D. Dinorah, claro. Íamos ao parque, eu e minha irmã, montar em todos os brinquedos e para mim o mais esperado era Monga - a mulher gorila. Sempre fui muito medroso e já entrava com medo. Era aquele suspense! Uma voz masculina muito grave estimulando nossas aflições, uma mulher de biquini dançando e à medida que o homem ia falando ela se transformava num medonho gorila. "Calma, Monga! Calma!" Todo mundo saía correndo, gritando de medo, um empurra-empurra na porta do lugar para todos se salvarem de Monga.

Vocês acham que minha mãe, comigo no braço, saía correndo, gritando, querendo se salvar daquele monstro? Que nada! Ficávamos eu, mainha e Monga sozinhos dentro do trailer. Monga vinha em cima de mim que gritava apavorado e minha mãe dizendo: não tenha medo não, bobo! Isso é jogo de espelho. Não é de verdade, não. E eu gritava: Vamos sair!!! Ela: não vou sair tomando empurrão, não. Monga é de mentira, abestalhado!!!! Depois que o povo todo já estava fora, e minha irmã era uma das primeiras, eu saía desesperado, desgostoso, porque a ilusão de Monga, anualmente, era destruída pela tranquilidade de minha mãe que tentava fazer uma criança compreender o que era jogo de espelho.

Eu me pergunto até hoje porque ela me levava ali se não era para eu ter medo? Hoje eu tento mostrar a ela que as "Mongas" que a amedrontam não são reais, são inconscientes. Engraçado... ela me tirou os medos e acho que pegou para si.

* Escolhi este texto (publicado em Julho de 2008) para hoje em homenagem a Katinha e a festa do gigantinho daqui de casa que foi comemorada sábado em Santo Amaro. O aniversário teve como tema a festa de largo que eu comento aqui no texto e foi um dia tão lindo, com tantos reencontros. Vi os gigantes dos amigosmais próximos brincando, correndo, comemorando o daqui de casa.

Alguns e-amigos já conhecem, comentaram, espero que não os aborreça reler.

sábado, 24 de julho de 2010

O gigante daqui de casa



Hoje o nosso menino é um rei. Há dois anos encheu nossa casa com a riqueza de seu sorriso, esperteza, graça, carinho. Inundou a nossa vida de amor e assim será sempre durante toda sua vida. É lindo ver a aquisição da linguagem, o início das tentativas de comunicação, as primeiras bocas quebradas e a culpa por não ter segurado na queda, o primeiro beijo, abraço, a forma que chama nosso nome e nos olha, nos compreende.

Tão pequenininho e tão a gente. Seus pais fizeram bem feito em tudo, na capa e no conteúdo.

Hoje peço a vida que lhe dê sempre alegria, saúde, bons amigos, que não lhe falte nunca amor e sensibilidade para lidar com os outros, consigo mesmo.

É impossível pensar em minha vida sem ele, como se isso já estivesse determinado, como se ele sempre fizesse parte dela. E faz e fez e fará.

Ele era a pessoa que faltava chegar, chegou e está crescendo. O gigante daqui de casa!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Chorando brisa

Que seja doce Que seja doce Que seja doce

Dormiu repetindo essa frase como um mantra. Segurou a respiração e mergulhou naquele mar que só ele conhecia. Ouviu uma música suave e quase chorou. O dia as vezes parece bater.

Que seja leve Que seja leve Que seja leve

Acordou no meio da madrugada escutando o que crianças gritavam no sonho. Era um sonho bom, mas despertou como num pesadelo. Os sonhos as vezes podem agredir.

Saiu sem medo da violência e sentou em frente ao mar como fazia há muito tempo com um amigo agora distante. Chorou aquele mergulho. Lento, suave, quase chorando brisa. Agradeceu a horinha de descanso e agora continua amanhecendo o dia como quem nunca dormiu.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A história do nome

Porque também sou Carlos e porque ando comovido como o diabo. Antes da poesia de Drummond, quero contar a loucura que é meu nome: Carlos Eduardo. Nada demais, né? Parece até nome de personagem de novela mexicana. O problema está em porque me chamo assim. Minha mãe teve três filhos, os três nascidos de cesariana feita pelo mesmo obstetra Dr. Carlos.

- Carlos, registramos este último filho em sua homenagem: Carlos Eduardo!
- Dinorah, fico muito agradecido, mas meu nome é Carlos Alberto.

Enfim, já vim ao mundo com as bolas trocadas desde o nome, numa confusão da cabeça de minha mãe. Nada mais apropriado do que este poema de Drummond.

Poema de Sete Faces
Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.

O Homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.



Qual a origem do nome Carlos: TEUTÔNICO
Significado de Carlos
Qual o significado do nome Carlos: FAZENDEIRO; LAVRADOR.
Significado e origem do nome carlos - Analise da Primeira Letra do Nome: C
Pessoa charmosa, amavel e expressiva, muito criativa e um tanto curiosa. Tem uma certa dificuldade na concentração e como gosta de compartilhar tudo com os outros é o tipo de pessoa que não consegue guardar suas idéias só para si. Sempre de bom astral, é daquelas que adora festa. Só tem um problema em enfeitar demais a realidade, exagerando na dose e não conseguindo controlar sua mania de falar. Pode criar a imagem de fofoqueiro.

Qual a origem do nome Eduardo: ANGLO-SAXÂO
Qual o significado do nome Eduardo: PRÓSPERO GUARDIÃO.
Significado e origem do nome eduardo - Analise da Primeira Letra do Nome: E
Muita inteligencia e poder de comunicação, apontam para sua necessidade de falar, embora nem sempre diga tudo o que lhe vem à cabeça. Segue sempre movido pela razão, e se enfurece quando é desmentido ou contrariado. Sempre pensa muito, e isso interfere na concentração do que está fazendo. Pode vir a ser um excelente escritor, advogado ou professor. Mas para isso deve aprender a controlar seu nervosismo e se observar para não virar um tagarela.

Fonte: http://www.significado.origem.nom.br/nomes

sábado, 17 de julho de 2010

Pequetitas coisas entre nós dois

Adoro achar graça da vida. Sorrir é a melhor forma de agradecer, de celebrar. Aiii a vida as vezes me faz cócegase e eu sorrio com todos os dentes, todos os músculos, todo o corpo. A vida tem muita graça.

- o pão quente na boca do fogão
- o café de mainha
- dormir de conchinha agarradinho
- o sexo na rede do albergue
- o quintal
- o colo na cachoeira
- a chuva do Rio
- a casa das coisas mais queridas
- a Av. Paulista
- a noite
- as dobradas de Gera
- o olhar naquela festa
- as inúmeras despedidas
- os milhares reencontros
- o travesseiro velho
- o banquinho de meu avô
- a janela
- a Rua do Amparo
- o Roses
- o colo na grama
- o homem nu tomando sol
- o estacionamento
- o Farol
- o rio
- a areia
- a imensidão

sexta-feira, 16 de julho de 2010

I Will Survive: Dancing Auschwitz

Juro que tenho me esforçado muito para deixar os dois blogs independentes, mas tem coisas do Corpo Perturbador que eu acho impossível não compartilhar com os amigos daqui do Monólogos que já tem uma rede própria e muitos ainda não sabem do outro.

Ontem vi uma matéria no JB notícias e pensei imediatamente no Corpo. Falava sobre uma família de descendente do Holocausto dançando I will survive no campo de concentração em Auschwitz. Fiquei comovido com aquilo. Para mim foi importante colocar naquele blog porque nas entrevistas que tenho feito, ocasionalmente surge o exemplo do Nazismo como algo perturbador.

Em função daquele post, recebi do amigo Clênio Magalhães esta segunda publicação da série de video instalação, mais poética e tão comovente. Então resolvi postar aqui no Monólogos para compartilhar com meu e-amigos. O primeiro vídeo vocês podem conferir no blog d'O Corpo Perturbador. O segundo está aqui embaixo.



Transcrevo, abaixo, produzido por Jane Korman publicado no Youtube:

This is the second part of the 'Dancing Auschwitz' video installation series. This video shows Marysia and Adolek Kohn, the Wysokiers, Leda Gringlass and me (Jane Korman) when I was a little girl dancing freely with my parents and their friends in a forest outside Melbourne.



This footage illustrates how both dancing, and my parents attitude to life, have been woven into my own life. Growing up, I was always present while my parents danced. As an adult, it seemed a natural process to merge the two influences that have shaped my life that of my parents' story and that of dance hence the project, Dancing Auschwitz.

O terceiro video da série pode ser visto pelo link http://www.youtube.com/watch?v=DpfID7pLe7M&feature=related

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A mudança

Resolvi trocar de casca, mudar a pele, arrumar o guarda-roupa. Como quem corta o cabelo indicando que algo mudou por dentro, mudei a cara dos meus blogs, aqui o Monólogos e também do Corpo Perturbador http://ocorpoperturbador.blogspot.com// , fui bisbilhotando nas gavetas do meu computador e encontrei este texto em que escrevi há bastante tempo com o nome A Mudança. Achei apropriado publicar hoje.

Pode ir que eu ainda não me arrumei
Nem sei o que vou levar
Eu me atrasei
Precisei me buscar
Não podia ir, assim, sem saber de mim!
Se quiser ir, vá!
Eu prefiro assim
Aí dentro está faltando tanta coisa!
Você deve estar esquecendo quase tudo
Só vejo coisas supérfluas, inúteis,
Futilidades mesmo!
Se tiver tanta pressa, vá indo à frente
Que eu vou mais tarde
Agora, se quiser ficar, por favor, faça silêncio,
Tenho que pensar em mim
Tenho que lembrar do que está faltando
O que é que você está fazendo na frente desse espelho?
Eu te disse que você estava esquecendo alguma coisa,
Mas não é no espelho que a gente se acha, não!
Isso é só uma ilusão, um reflexo...
Na verdade a gente nunca se vê
Eu nunca saberei do meu rosto
É uma pena!
Nunca verei meu sorriso, meu olhar...
Qual a medida exata do que sinto
E do que deixo transparecer
Talvez “nunca” seja um exagero
Talvez a morte seja para isso
Seja o momento em que nos vemos de cara,
Nos encarando, nos questionando...
Por isso tenho medo,
Porque me idealizo de uma forma
E será doloroso, depois de passar a vida toda pensando assim,
Decepcionar-me no final
Você ainda quer que eu vá sem saber ao certo o que levar?
Não. Quero estar consciente do peso que tenho que carregar
Toda mudança é mais ou menos como uma morte
É uma história que se encerrou
Outra que está apenas começando
Quando eu fechar essa porta pela última vez
É nossa história que acaba
Outra recomeça quando alguém abri-la novamente
O final deveria ser sem dor, sem rancor...
É apenas o final:
Não se anula o que passou, os momentos bons ao teu lado...
Não apaga os livros, os cheiros, as músicas...
Não devolve os presentes,
Não queima as fotos, as cartas,
Não dissolve os beijos.
É apenas um pôr do sol sem mais alvorada!
É um ocaso prolongado chegando,
Porque o sol cansou da rotina de acordar ao teu lado.
Desfrutaremos apenas da companhia da lua e das estrelas
Daquele friozinho de noite na barriga toda vez que lembrarmos de nós.
É a felicidade de estar livre misturada a uma certa nostalgia
E a saudade dos beijos
É necessário sabermos o momento certo de partir
Partindo corremos o risco de voltar,
Partindo corremos o risco da descoberta, do novo...
Partiremos agora.

E esse ônibus que não chega!
De onde ele vem?
Nós viemos e não sabemos de onde.
Ah! Viemos daquela porta que se fechou!
É um erro, mas geralmente nos esquecemos das portas fechadas.
Trancamos e jogamos a chave fora por medida de segurança
Que tolice, não é necessária a tranca!
Mesmo voltando não seria mais a mesma chave,
Porque é óbvio, não seria mais a mesma porta.
Ih! Eu esqueci um bocado de entulho lá dentro!
Coitado de quem entrar lá,
Sairá tropeçando num monte de segredos!
Encontrará vários fantasmas, além dos que trará.
Engraçado, essas pessoas tão apressadas, ansiosas...
Carregam sempre mais do que precisam
Assim como você.
E eu que deixei tudo lá!
Era peso demais.
Muitos erros, mágoas, palavras impensadas, muito choro.
Era muita coisa!
Só trouxe de volta uma criança que encontrei escondida debaixo da cama.
Estava brincando, fugindo do bicho-papão que acordou!

Esse não é o teu ônibus?
Corra, você tem tanta pressa...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Distância dentro

E há aquele tal do amor
uma formiguinha dentro da gente
subindo em cócegas
nos fazendo rir sem motivo aparente

E há este meu amor
que me dá vontade de chorar
só em estar perto
mesmo quando está longe
e que me grita no peito

"não há distância quando se está dentro!"

terça-feira, 13 de julho de 2010

Por Ti

Há quanto tempo estou aqui?
Nem me dei conta do tempo
Também, só faço dormir!
E as coisas? Os meninos?
Estou muito ferido
Eu não me reconheci
Eu não era assim
Sei que Tinha ido ao shopping
Pagar umas contas, fazer umas compras...
Ah! Nem sei!
E aí passeando, eu vi aquela criatura
Lembro que saí correndo para bater nela
E eu caí
Eu estava com muito ódio!
Então acordei aqui
Quer dizer, fiquei dormindo aqui até hoje
Devem ter parado com a medicação
Você é minha primeira visita
Eu estou muito só
Eles Tiraram todos os espelhos
Ninguém perguntou por mim?
Ninguém vem me ver.
Estão com medo, né?
Eu não fiz mal a ninguém
Eu só machuquei a mim mesmo
É...
Eu não gosto da comida
E também não posso tomar Coca-cola
Estou com saudade de minha “neguinha”!
Só tomo água mineral
Eles também não me deixam fumar
Eu nunca mais fui tomar sol
Prefiro ficar aqui nesse frio
É que me lembra uma coisa...
Ah! Deixa pra lá!
E você ficou com medo?
Eu morro de medo daqui
Ficaram gritando coisas, do outro quarto, pra mim
Então cantei
Eu cantei meu bem-te-vi
Eu cantei Quando te vi
Eu cantei para Ti
Um dia cantei tanto que adormeci
Tive um sonho muito louco
Sonhei que a “feiTiceira” dançava can-can para mim
Foi muito bom!
Muito engraçado!
“Ela” estava “lindo”!
Toda noite sonho com a “feiTiceira”
E eu morro de medo daqueles olhos de esperança dela
Foram aqueles olhos que eu vi
Olhando para outra direção
Sei que Tinha ido ao shopping
Pagar umas contas, fazer umas compras...
Ah! Nem sei!
Quando eu vi aquela maravilha
Aqueles olhos que me sorriram
Saímos passeando
Quando olhei para o lado...
Saí correndo
E eu caí
Eu Tive muito medo!
Então acordei aqui
Eles não me deixam ler Clarice Lispector
“Ela é muito herméTica!”
E ninguém acreditou quando eu disse que era amor
Todos riram de mim
Todos zombaram de mim
Porque eu não sei amar
Todo mundo sabe, menos eu!
Todo mundo pode, menos eu!
Eu fiquei muito tonto
E comecei a perguntar verdades
E a falar verdades
Era melhor ter dormido com meu neném,
Ter saído, ter ficado com meu neném.
Por incrível que pareça
Eu Tive um filho, uma comadre,
Não Tinha trabalho, não Tinha dinheiro,
Mas Tinha o meu neném.
Foi então que a chuva, as “nevadas” chegaram
E eu bebi
Não lembro direito
Sei que Tinha ido ao shopping
Pagar umas contas, fazer umas compras...
Ah! Já sei!
Eu Tinha ido encontrar...
Já estava passeando abraçado com aquela maravilha
Que sorriu para mim
Quando olhei para o lado...
Eu vi...
Embora esTivéssemos abraçados
Eu via o abraço com aquela criatura
E ao mesmo tempo em que me beijava
Beijava aquela criatura
As mãos segurando as minhas e as daquela criatura
Então saí correndo
Gritando
Chorando no meio daquele povo
Eu queria matar, surrar, estrangular aquela criatura!
ParTi para dar um murro naquela cara
E caí
Sem entender nada, minha maravilha, correu para me acudir.
Eu havia quebrado o espelho,
Que caiu sobre mim
Eu não me reconheci
Então acordei aqui!

Este texto, escrito em 2002, foi encenado por Zunk Ramos em 2003 na apresentação do espetáculo Monólogos na Madrugada, apresentado no Bar Quixabeira. Foi um período horrível em que eu enlouquecia de ciúme, perdia a razão. Até hoje me faz mal ler isso, são lembranças muito ruins.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A espera

Não há coisa mais insuportável do que a espera. Perdemos tempo, energia, passam-se oportunidades enquanto estamos a esperar. Esperar o táxi que não chega no horário, esperar o amor que não veio quando imaginávamos, quem sabe depois do tempo da delicadeza, esperar a funcionária do banco abrir a porta para deficiente, esperar a fila do banco, esperar a máquina dizer que não consta nenhum depósito na sua conta.


Aí você conta até dez e repete a operação. Não, não consta nada mesmo. Aliás, consta as inúmeras correspondências que o banco envia te informando que o saldo está negativo, mais precisamente R$ 40,47 negativos. Acho importante declarar os valores aqui porque se trata de Edital do Governo, do projeto O Corpo Perturbador, então tem que estar tudo bem esclarecido.

Em fevereiro fui informado que as diligências do projeto foram aceitas e estava tudo ok para a assinatura do TAC (Termo de Acordo e Compromisso). Nessa época tive que abrir a conta do projeto para enviar a FUNCEB que enviaria ao Fundo de Cultura. Pois bem, meu povo, resumo da ópera. Só assinei o TAC em Junho com a promessa de depósito início de Julho, já estamos em meados do mês e nada feito. A conta só aumenta o tom do vermelho e essa dívida terei que pagar do meu próprio bolso, porque o Estado não se responsabiliza pelas taxas bancárias.

A FUNCEB me informou que o dinheiro já está disponível para o depósito, só não sei por que o Fundo de Cultura não deposita. Quem faz projeto sabe que o orçamento é regrado, temos que fazer mágica para que o dinheiro seja suficiente para o trabalho, com as taxas altíssimas do banco e sem o depósito no tempo certo, algo do projeto terá que ser sacrificado. Sabe o que eles dizem? Que terei que tirar de alguma rubrica pessoal, ou seja, do meu salário mesmo, porque se eu tirar de um outro ítem tem que justificar e eles não aceitam esse tipo de pagamento.

Ficamos radiantes com as vitórias dos nossos projetos, acho que tem muita coisa positiva no campo da Dança, mas esse lance do repasse do dinheiro dos Editais nos deixa nervosos, tensos, preocupados. Ninguém toma uma providencia para agilizar o baba. Enquanto isso, o projeto já começou, porque assinamos o TAC e temos que iniciar imediatamente, independente se dinheiro saiu ou não. Já estou tendo reuniões com o pessoal do cenário, música, figurino, produção. Já estamos fechando com o espaço para ensaio, enfim... o projeto anda dentro dos TERMOS, conforme o ACORDO, mas o COMPROMISSO do pagamento não chega.

domingo, 11 de julho de 2010

Prazo de validade - da série "Retomando o passado"

“Quem quer doce?
Tenho para dar!
Quem quer doce?
Cuidado para não enjoar!”

Nunca gostei de açúcar
Meu café sempre amargo
Meu suco...
Meu soco no estômago!
Resolvi experimentar o teu doce
Peguei como mercadoria fresca,
Nova no pedaço,
Novidade saída do forno naquela hora
Tinha uma embalagem bonita
E um sabor bem gostoso
De conteúdo, não era lá essas coisas
Mas também não comprometia
Estava ainda em fase de teste
Belisquei algumas vezes
Mas para não enjoar
Guardei num lugar distante
Quase nunca podia ir lá, por mais esforço que fizesse
Não pude desfrutar, muito, do meu produto
Nem criei amor propriamente dito
Desenvolvi, sim, uma certa vontade de possuí-lo
E me alimentei dela
Já que não poderia me alimentar do mesmo
Porém, quando eu ia e pegava,
O doce derretia na minha boca
Era um encaixe perfeito:
O vazio entre meus dentes
Preenchido de prazer
De doce com sabor de corpo
Corpo! Carinho!
Almofada de algodão doce!
Beijo de chocolate quente!
Cobertor de flocos de nuvens!
Brincadeira de meninos embriagados de vinho!
Mas, meu doce passou do ponto, passou da hora
Quando voltei, depois de um tempo afastado
Encontrei-o estragado, numa prateleira esquecida
Passou-se muito tempo
A validade estava vencida

Reencontrei este texto publicado aqui no blog em 17 de Julho de 2008. Gosto muito deste texto porque ele é de um período em que vivi a primeira experiência amorosa, numa relação imatura, mas muito gostosa, divertida, leve. Foi lá em 2001 e hoje ue leio e gosto de como eu consegui ver o que foi tudo aquilo. Sem sofrimento desmedido, sem drama e tragédia.

Uma brisa

Voltando do blog de Chorik que escreveu sobre o caso da morte de Eliza Samudio, mulher que teve um filho com o goleiro do Flamengo, Bruno que a matou junto com outros criminosos, de forma brutal e inacreditável. Não terei capacidade de falar sobre isso, não me sinto capaz de tecer comentários sobre este caso que chocou a todos e a mim me deu uma sensação estranha sobre o humano, como se definhassemos. Não sei.....

Cazuza pedia um remédio que lhe desse alegria. Acho que todos nós estamos precisando um pouco desse remédio. É muita risteza ver a barbárie acontecendo e saber da frieza e ver a vida pode ser igual a ração de cachorro.

O que nos falta ou o que nos sobra?

Como artista, penso que a arte pode servir para melhorar o Homem. Ter contato com o sensível, com o belo. Belo não na forma, na capa. Ter contato, por exemplo, com a música de Johnny Alf, a poesia, a delicadeza. Tenho certeza que isso faz de alguém melhor na vida. Não é possível que não.

Eu e a Brisa é uma música linda e neste vídeo está sendo cantada por Baby do Brasil, no show apresentado em Março em São Paulo, show que tive o privilégio de ver e me emocionar.

Quero deixar, hoje, aqui no blog, um remédio para que possamos lembrar que existe o outro lado da moeda, que o humano é capaz de fazer pérolas.


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entrevista de Baby do Brasil

Baby do Brasil me concedeu esta breve entrevista após um show inesquecível que fez com Elza Soares e Ademilde Fonseca, em São Paulo. Muito simpática, aberta e delicada, falou sobre o que a perturba e o que é um corpo perturbador de forma bastante consciente e bela.

A partir de hoje, até o final do projeto O Corpo Perturbador, disponibilizarei entrevistas que venho fazendo com diversas pessoas. Baby abre a série.

Entrevista no link: http://ocorpoperturbador.blogspot.com/

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Início do Corpo Perturbador


Como eu havia dito, iniciei as pesquisas para meu próximo projeto coreográfico, O Corpo Perturbador. É com uma euforia imensa e um desejo de que tudo aconteça da melhor maneira possível que venho declarar a abertura dos trabalhos no blog http://ocorpoperturbador.blogspot.com/

Conto a participação de vocês, com visitas e opiniões, sugestões e críticas. Desejo que O Corpo seja um sucesso como é Judite e Odete e que o blog seja visitado como o meu Monólogos. Estarei agora dividido entre os dois.


Amanhã começarei a publicação das entrevistas que tenho feito com várias pessoas de áreas e corpos diversos. A primeira será Baby do Brasil, num depoimento incrível sobre o que é um corpo perturbador para ela e o que a perturba na vida. Emocionante no jeito Baby de ser.

Ao longo do projeto irei esclarecendo e publicando as pesquisas corporais, teóricas, as colaborações, enfim... agora é hora de organizar a casa e deixá-la pronta para as visistas. Fiquem a vontade para entrar a hora que quiserem. Eu já estou por lá

Fotos de André Baliú

Destaque no IDANÇA


Meu povo, o nosso 1º Encontro de Dança Inclusiva. O que é isso? já está bombando, viu? Hoje somos um dos destaques do Idança que é um espaço muito respeitado e importante no universo da Dança. Ontem Isabella Motta me ligou e fez uma entrevista rapidinha comigo. Hoje já estamos na rede:  http://idanca.net/lang/pt-br/2010/07/08/danca-inclusiva-o-que-e-isso/15642 

Penso que são ações como essas, e não somente montagem de espetáculo, dão valor a um grupo, enriquecendo nosso repertório e o nosso fazer. Estamos numa loucura de produção que parece avalanche de tanta coisa que surge a todo instante, mas é uma delicia ver um projeto desse se concretizar sem um centavo na mão e ver tanta gente de fora interessada. Já recebemos emails de pessoas do Piaui, Recife, Argentina, Sergipe, Chile, Santos, Maranhão.....

Pessoas interessadas na monitoria, em apresentar trabalhos. Recebemos o apoio da FUNCEB através do Calendário de Apoio que pagará a hospedagem, transporte, alimentação e translado dos convidados de fora, mas ainda preciamos receber apoios financeiros para pagar coisas urgentes que aparecem e que aparecerão e principalmente para pagar aos palestrantes e pessoas que estão trabalhando conosco.

Meus amigos do Coletivo O12 teve uma idéia que eu achei fantástica para eles poderem manter o grupo ativo, inventaram uma vaquinha. Quem quiser contribuir com eles deposita a quantia que puder numa conta.

Acho que vou adotar esta idéia para o Encontro, mas preciso de autorização da chefa e da vice-chefa. Quem se animar com essa possibilidade de ajudar, por favor se manisfeste porque assim engrossa meu coro.
Para todos compreenderem exatamente do que se trata o 1º Encontro de Dança Inclusiva. O que é isso? pode entrar no blog do evento http://encontrodedancainclusiva.blogspot.com/

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O moleque


A palavra cazuza significa moloque, menino, segundo consta no livro Só as mães são felizes de Lucinha Araújo. Cazuza sempre foi para mim como aquele menino do final da rua que não conhecemos, mas que adoraríamos ser amigos. Amo tudo que se refere a ele: a rebeldia, inteligência, humor, mau humor, amigo, intensidade, música, poesia, sexo, tesão, delícia....

Vontade de comer Cazuza, engolir, tê-lo dentro. Acho que já o tenho de tanto ouvi-lo, de tanto viajar num possível encontro, numa possível briga, no show que nunca assisti. Um moleque que não me conheceu. Chutou a bola na minha vidraça e saiu correndo sem saber qual a cara do dono daquela janela e eu olhando pelo lado de dentro, riso de canto de boca, admirando uma travessura normal de menino.

Ele me faz rir até hoje e grita por mim. Vinte anos sem nenhuma novidade dele e mesmo assim tudo que fez nos parece atual, novo, futuro, eterno.

Aiiiii Cazuza queria um beijo gostoso como segredo de liquidificador e uma declaração exagerada de amor. Como você gostava, amor de fossa agora sem você, mas também mentiras sinceras te interessam, né?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Eterno retorno

Queria ser Marilyn by Queria Ser Warhol
(trabalho de Hebert Valois a partir de foto de Stephany Matanó)

Sabe quando dá aquele vazio por causa do cansaço? Ou seria pelo excesso de informações carregadas no corpo? As vezes de tão cheio o copo parece vazio e já dizia Gilberto Gil o copo está cheio de ar.

Dei uma morridinha nesses dois dias de chegada. O corpo pedindo silêncio e a mente e os dedos e a boca.

Cheguei radiante e parece que ainda não cheguei completamente. Já falei muito sobre a experiência com o Candoco, sobre os encontros, um pouco sobre Londres.

Agora é olhar para o que vem, o que na verdade já está.

Hoje comecei um trabalho com a Cia Pensamento Tropical, a mesma que fui para Itacaré, agora com o Projeto do Ar etapa Salvador e foi uma delícia reencontrar Cathy e Gullaume e me bater com os loucos, como eu, que foram convidados para o projeto.

Sexta começo junto a Fafá e Victor as oficinas no Museu Rodin, o que está me enchendo de alegria e expectativas boas.

Até Dezembro trabalharei na montagem de O Corpo Perturbador, Encontro de Dança Inclusiva, Euphorico, Judite, Odete, Os 3 Audiveis...................... e assim vou seguindo até o ano que vem, quando em Fevereiro retornarei a Londres.

Que assim seja!

Partir é um ato doloroso, mas retornar é uma delícia! Ver mainha, minha irmã, sobrinho, meu amor, amigos. Sentir o cheiro e o gosto do café. Cair na insanidade de estar aqui na frente do computador me enchendo com os projetos. Aquietar aqui no blog onde meus Monólogos viram diálogos facilmente e nunca me sinto só.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Partida

Arruma a mala que está na hora de voltar! Coisa difícil é partir. Seja de onde for, é difícil.

Sou muito chorão, sempre fui, desde pequeno.Minha irmã me chamava de manteiga derretida e eu chorava mais ainda. Amanhã me despedirei dos meninos do Candoco. Mais do que estar aqui neste lugar, eu estive com eles, com minhas expectativas, minha dança, meus sonhos, minhas ausências.

Hoje foi um dia muito forte emocionalmente para mim, fiz uma improvisação linda com Mirjam, vi os olhos marejados de Betina, senti o carinho de Ellie, Vick, o corpo de Dan, o sorriso gostoso de Chris e Nick, o sorriso delicado de Kimberley, o olhar sutil de Annie, a dança de Darren.

Quase engasguei num choro na cozinha com Seval e vi a imaginação bailando nos braços de Memet.

Fiz terapia durante uns poucos anos e nunca consegui resolver esse lance de partida. Partir.... para onde?