terça-feira, 13 de julho de 2010

Por Ti

Há quanto tempo estou aqui?
Nem me dei conta do tempo
Também, só faço dormir!
E as coisas? Os meninos?
Estou muito ferido
Eu não me reconheci
Eu não era assim
Sei que Tinha ido ao shopping
Pagar umas contas, fazer umas compras...
Ah! Nem sei!
E aí passeando, eu vi aquela criatura
Lembro que saí correndo para bater nela
E eu caí
Eu estava com muito ódio!
Então acordei aqui
Quer dizer, fiquei dormindo aqui até hoje
Devem ter parado com a medicação
Você é minha primeira visita
Eu estou muito só
Eles Tiraram todos os espelhos
Ninguém perguntou por mim?
Ninguém vem me ver.
Estão com medo, né?
Eu não fiz mal a ninguém
Eu só machuquei a mim mesmo
É...
Eu não gosto da comida
E também não posso tomar Coca-cola
Estou com saudade de minha “neguinha”!
Só tomo água mineral
Eles também não me deixam fumar
Eu nunca mais fui tomar sol
Prefiro ficar aqui nesse frio
É que me lembra uma coisa...
Ah! Deixa pra lá!
E você ficou com medo?
Eu morro de medo daqui
Ficaram gritando coisas, do outro quarto, pra mim
Então cantei
Eu cantei meu bem-te-vi
Eu cantei Quando te vi
Eu cantei para Ti
Um dia cantei tanto que adormeci
Tive um sonho muito louco
Sonhei que a “feiTiceira” dançava can-can para mim
Foi muito bom!
Muito engraçado!
“Ela” estava “lindo”!
Toda noite sonho com a “feiTiceira”
E eu morro de medo daqueles olhos de esperança dela
Foram aqueles olhos que eu vi
Olhando para outra direção
Sei que Tinha ido ao shopping
Pagar umas contas, fazer umas compras...
Ah! Nem sei!
Quando eu vi aquela maravilha
Aqueles olhos que me sorriram
Saímos passeando
Quando olhei para o lado...
Saí correndo
E eu caí
Eu Tive muito medo!
Então acordei aqui
Eles não me deixam ler Clarice Lispector
“Ela é muito herméTica!”
E ninguém acreditou quando eu disse que era amor
Todos riram de mim
Todos zombaram de mim
Porque eu não sei amar
Todo mundo sabe, menos eu!
Todo mundo pode, menos eu!
Eu fiquei muito tonto
E comecei a perguntar verdades
E a falar verdades
Era melhor ter dormido com meu neném,
Ter saído, ter ficado com meu neném.
Por incrível que pareça
Eu Tive um filho, uma comadre,
Não Tinha trabalho, não Tinha dinheiro,
Mas Tinha o meu neném.
Foi então que a chuva, as “nevadas” chegaram
E eu bebi
Não lembro direito
Sei que Tinha ido ao shopping
Pagar umas contas, fazer umas compras...
Ah! Já sei!
Eu Tinha ido encontrar...
Já estava passeando abraçado com aquela maravilha
Que sorriu para mim
Quando olhei para o lado...
Eu vi...
Embora esTivéssemos abraçados
Eu via o abraço com aquela criatura
E ao mesmo tempo em que me beijava
Beijava aquela criatura
As mãos segurando as minhas e as daquela criatura
Então saí correndo
Gritando
Chorando no meio daquele povo
Eu queria matar, surrar, estrangular aquela criatura!
ParTi para dar um murro naquela cara
E caí
Sem entender nada, minha maravilha, correu para me acudir.
Eu havia quebrado o espelho,
Que caiu sobre mim
Eu não me reconheci
Então acordei aqui!

Este texto, escrito em 2002, foi encenado por Zunk Ramos em 2003 na apresentação do espetáculo Monólogos na Madrugada, apresentado no Bar Quixabeira. Foi um período horrível em que eu enlouquecia de ciúme, perdia a razão. Até hoje me faz mal ler isso, são lembranças muito ruins.

5 comentários:

clenio disse...

dá medo!

Claudia disse...

escorpião... ciumento por natureza! te entendo muito bem! :-)

Gerana Damulakis disse...

Incrível!

Chorik disse...

Intenso pra cacete.

Jai disse...

Forte, intenso Du!!! E sempre bom ler seus textos, e como se fosse nosso, sempre tem um pouco de nos , neles.
Lembro deste espetaculo no Quixabeira, alias, este espaco faz falta...