quinta-feira, 25 de março de 2010

Odete, traga meus mortos

Num almoço em casa de uma família tradicional, na hora do café, depois de todo ritual da refeição francesa, a matriarca pede a empregada: “Odete, traga meus mortos!”. Incrédulo, com expressão assustada, fui informado que este pedido tornou-se habitual daquela senhora que lê diariamente o obituário do jornal enquanto toma seu cafezinho. Sua preocupação é saber se algum conhecido faleceu e observar a forma como foram escritas as informações sobre os óbitos, sempre discordando e dizendo que não quer o seu daquele jeito. Então, começa a descrever como gostaria que divulgassem sua morte, a foto que deve ser colocada, a roupa e como as pessoas devem agir no seu funeral.
Pensando sobre meus mortos.... associei a minhas perdas, a minhas experiências vividas, a coisas/pessoas/lugares que fazem parte do meu passado. A memória me traz meus mortos e estes não têm nada a ver com dita cuja, com a malvada, a dona que chega com a foice. Meus mortos estão relacionados a ausências que no fundo não são ausências, estão presentes em mim, no meu corpo, no meu jeito, nas minhas sensações e na forma de lidar com os sentimentos. Os encontros podem ser meus mortos, os desencontros também. As viagens, os amores, os desamores, os livros, as músicas.... Tudo reverberando e dando sentido a minha vida.

2 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Esta senhora é minha cara colhega. Todo dia examino meus mortos. Defino sobre meu sepultamento (vou de óculos para poder ver tudo direitinho do lado de lá, se houver). Vivo em guerra com Charlot que se recusa a segurar a alça do meu caixão, sequer vai me ver morta. Pode?

Gerana Damulakis disse...

"Tudo reverberando e dando sentido a minha vida".
Que frase bela, pois o que importa é o sentido da vida!