terça-feira, 14 de abril de 2009

O astronauta e o urubu

Aqui na cidade, quando chega o parque de diversões é uma festa. Eu lembro que desde menino eu me encantava com a barraquinha de pipoca diferente das outras que conhecia. Os meninos enlouqueciam com o trem fantasma, o carrinho de bate-bate e o twiste, mas eu ficava parado vendo aquele pipoqueiro de olhos perdidos, olhando o espaço por entre as grades da roda-gigante que rodava.
- Moço, quanto é a pipoca doce?
-Moço...
Ele perdido em seus pensamentos, antes da venda soltava vagamente:
- Está anoitecendo e as estrelas começam a despontar.
Eu, pequeno, não entendia o que aquele senhor que começava a "engrisalhar" o cabelo e o bigode de pelos crespos, pele negra, barriguinha saliente apontando entre os botões do macacão prateado, ficava feito criança vendo as estrelas surgindo.

Cresci um pouco mais e virei frenquentador da praça da cidade pequena que nunca mais recebeu parque de diversões. Todo final de semana lá estava o Tonho da Pipoca a vagar, olhando o céu. Num sábado de pouco movimento e nenhuma paquera, resolvi papear com ele e matar minha curiosidade em saber o que tanto o encantava lá no alto. O velho pipoqueiro me revelou que sempre teve sonho em ser astronauta. Sonhava, de verdade, vestido naquele macacão grande, com um "aquário" redondo na cabeça, flutuando pela galáxia.
Me revelou ainda que começou a vender pipoca porque num parque, que chegou à cidade quando ele era pequeno, havia um brinquedo que era um foguete onde as crianças ficavam rodando dentro dele. Para aquele homem esta era a melhor sensação do mundo: sair rodopiando, tonto do foguete, como os astronautas deveriam ficar quando retornavam a Terra. Como não tinha dinheiro para pagar todos os dias o ingresso do parque, começou a vender pipoca para entrar e passar o tempo todo lá dentro. Disse que conheceu muita gente importante.
Seus amigos, sabendo do sonho do menino Tonho, ouviram no rádio que naquela noite haveria um sorteio no parque e o vencedor ganharia uma viagem de avião para a matriz do empreendimento que ficava em São Paulo.
- Tonho, você tem que concorrer ao prêmio, você não sonha em voar, em ser astronauta?
- Oxe, vocês são abestalhados? Viajar de avião é a mesma coisa de viajar de carona num urubu. Eu quero ir mais longe! Não vou participar disso, não. Vou juntar meu dinheiro e quando fizer dezoito anos eu compro minha passagem e viajo de foguete.

Há muito tempo Tonho da Pipoca fez dezoito anos e não conseguiu juntar dinheiro suficiente para sua viagem dos sonhos, mas ele diz que não é triste por isto, fez da sua barraquinha de pipocas, em forma de nave espacial, um jeito de não ficar na Terra.
Vive viajando por aí, por onde sua imaginação permitir. Só se arrepende de ter perdido a chance de passear entre as nuvens, ficou muito pesado para os urubus.

4 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

Grande Edu, texto do cacete! Lindo!

maria guimarães sampaio disse...

Lindo! LINDO!
Botou pra ph, seu Edu!
beijos

Renata Belmonte disse...

Oh, Edu! Eu não tinha idéia disso!
Se sinta sempre bem-vindo no Vestígios. Já vou colocar seu link lá.
Bjs,
Renata

imonizpacheco disse...

Rapá, que texto maravilhoso !
Bj, oto, tchau.