terça-feira, 8 de maio de 2012

Vontade doida de chorar doído

Poderia ser o nome de um filme, de uma coreografia, primeiro verso de um poema ou frase de carta de amor distante. Poderia ser esse silêncio de peito apertado. Poderia ser a lágrima que não cai, mas fica feito fantasma rondando a alma, a cama, o canto do olho. Poderia ser poeira espreitando as quinas da sala. Poderia ser bicho dengoso em tapete macio. Poderia ser... Poderia ser aquela luz apagando na noite úmida de casais. Poderia ser meu grito na madrugada. Poderia. Poderia ser estrada sinuosa do recôncavo, praça iluminada, adro de igreja e violão de irmão. Música de Eduardo Alves e voz de Stelinha. Poderia ser um retorno, uma desistência, um reencontro. Poderia ser... Poderia ser saúde de mãe. Poderia ser colo, abraço, afago, afeto. Poderia ser Judite me acalmando, mosca roendo o pão. Poderia gota de suor na ponta do nariz. Penetração. Poderia ser um dedo na ferida. Poderia ser a vida.

Mas é apenas essa vontade doida de chorar doído.

Foto de Samuel de Assis

5 comentários:

Talita Avelino disse...

Poderia ser só uma vontade de chorar, e me lembro de minha mãe dizendo sobre algumas vontades que já senti: "vontade passa"

Talita Avelino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Terse disse...

Sim. "Vontade dá e passa". Mas é que as vezes fica.

Por que você faz poema? disse...

E que venha o choro,
mesmo sem motivo aparente.

A vontade não deve encontrar
represas.

jair machado rodrigues disse...

Gostei muito do nome do blog, e gostei demais deste texto...gosto de escritos na madrugada, eles tem uma certa verdade, certa mentira, meio sonho, meio pesadelo, meio a gente, sempre dividido entre o sonho e a realidade, meio dormindo...palavras.
ps.Um imenso abraço