quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O amor desceu pro play (1º capítulo da minissérie Salgados Amigos)

O meu amor há alguns dias andava inquieto, distante, frio. Dando beijos ocos, sem sal e sem açúcar. Temperando meus pensamentos de Capitu. Me disse, gaguejando, que queria descer pro play. Sofri, vomitei, chorei todas as dores da perda, do abandono, da insegurança do que viria. Sentei no sofá sem ar, sem graça, sem o meu amor e esperei as unhas crescerem, a barba por fazer, as lágrimas que nunca secariam, esperando esgotar a ampulheta dos dias.

De repente ouço gargalhadas e músicas entrando como borboletas pela janela. Um grupo de amigos, o bloco de três sozinhos vindo fazer companhia ao meu bloco do eu sozinho. E me tirou da inércia, da angústia, me tiraram o gosto acre da boca, começaram a enfeitar a casa com flores de papel de presente, perfumar cada canto, me embriagar com o que há de melhor, com todo amor que houvesse nessa vida.

Que bloco estranho, que gente esquisita! Uma que vivia a rolar pelo chão gargalhando, inundando de alegria o espaço com um amor tão generoso que o sorriso transformava-se em lágrima e daí a gargalhada surgia, compartilhando as dores de todo mundo com seu coração de amiga forte, eterna. Era a chefona que falava de um jeito diferente, puxado, arrastando as palavras no final como gente bêbada. Veio de longe, voando quando soube da minha situação. Saiu arrastando a outra, a danada, menina sapeca e leve, de riso fácil e descarado. Não precisava falar nada, se fazia generosa mesmo nos silêncios dos sorrisos gargalhados. O outro era um gatinho pequeno, quase filhote, olhinho puxado, assustado com tanta loucura que começava a se desenhar  naquele dia. Chegou por causa de um OI e não saiu mais. O coloquei em meus braços e me senti acarinhado a cada sorriso, a cada delicadeza sua. Havia ainda o vendedor de lenços descartáveis, que pagou caro pra ver tudo isso acontecer e carregou cruz pesada a cada saída da toca desses Caros amigos, aliás, Salgados amigos.

Como se não bastasse tanto afeto, ainda há em off a voz de um amor incondicional, preocupado, como uma narradora que conta sobre os cuidados de irmãos.

Parece até que esqueci o meu amor lá embaixo no play, né? Não esqueci não, mas tenho me esforçado para não lembrar. É uma pena, porque talvez quando ele resolver subir a mesa esteja posta para outro, as cores da casa já não serão as mesmas que combinam com seu gosto, o cheiro dos lençóis provoquem-lhe alergia e minhas graças sejam piadas internas sem nenhuma graça para o seu humor.

Pois é, esse amor que desceu pro play não deu, mas esta história quem escreve sou eu  e desconheço novelas que não tenham final feliz.

Trilha sonora deste capítulo:
Pois é - Los Hermanos
"Pois é, não deu...
...E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
avisa que é de se entregar o viver"

* Hoje inicio minha segunda experiência em ficção inspirada em fatos reais. A minissérie Salgados Amigos é uma homenagem a estas pessoas que fizeram estes dias inesquecíveis, plenos de emoções diversas, de vida cheia de amor, mesmo sendo dias do não-amor de quem eu pensava ser para sempre meu. Semana que vem publico o segundo capítulo com descrição de fatos maravilhosos acontecidos em seis dias de extrema loucura e euforia, porque não dizer tristeza também?

6 comentários:

Cléa disse...

Já aguardando ansiosa o próximo capítulo. O problema é ter que esperar uma semana para me deleitar com a história.

Amelie disse...

MININO, que coisa linda! Que testo lindo, bem escrito, tocante!
Meu amor também desceu pro play e eu estava no 20º andar. Mas ando me recuperando, diariamente buscando um pouquinho de ar para viver cada dia de uma vez. E nunca esquecer que outro amor pode subir e me encontrar.
Um beijo enorme.
Suze

L. Bastos disse...

Ai, amado... sem palavras! Com muita vontade e medo do próximo capítulo. rsrsrsrs

Ed disse...

Sinto a alegria e a dor em cada vogal , cada consoante, e a felicidade desses salgados amigos cantantes, embriagantes, desejantes...uma sensação conhecida, até parece que estava ali...ao lado direito usufruindo e inalando cada lágrima do humano de quem fica, pois quem vai cria asa:seja feliz!
Mas quem fica edifica a casa...
E os Salgados amigos? aff maria...pedi uma Rosca dobrada.

Tiago do lenço disse...

Que legal Edu, muito bem escrito, parabéns!! Aquardando o próximo capítulo...

Gerana Damulakis disse...

Muito legal, Edu. Gera expectativa.