domingo, 22 de março de 2009

A estante de livros

Maurício estava todo animado com o prêmio que recebeu na rifa: uma estante de livros. Poderia, enfim, guardar seus Cecílias, Clarices, Machados, Hesses, Caios e Lucindas num lugar adequado, diferente das sacolas plásticas ao lado das caixas de papelão do quartinho da bagunça.

Informou solenemente a grande família na hora do almoço. Todos receberam a notícia sem muita empolgação. Todos já tinham suas estantes, seus lugares, seus cômodos. Maurício era o único que dormia do sofá-cama da sala que servia, também, de dormitório para as visitas que chegavam a sua casa. Nessas ocasiões ele dormia junto das sacolas plásticas ao lado das caixas de papelão do quartinho da bagunça.

O irmão mais velho dormia no quarto maior da casa porque precisava guardar suas máquinas de última geração sob o frio do único ar-condicionado, além das lembranças das inúmeras viagens e namoradas que acumulava na vida. A irmã segunda, grávida, organizava o quarto do meio para a chegada dos gêmeos e tudo era duplicado ali dentro: dois berços, duas cômodas, dois guarda-roupas, duas mamadeiras e chupetas, duas banheiras... duas banheiras? psiu, temos que respeitar a individualidade de cada um. Nisso Maurício era de acordo, a individualidade é algo muito importante na vida. O irmão caçula dormia com a mãe porque tinha medo do escuro e também para fazer-lhe companhia já que o pai, que trabalhava na estrada, só aparecia de quinze em quinze para passar dois dias e não guardava nada em casa a não ser roupa suja.

No dia seguinte chegou a estante de livros de Maurício, mas onde colocá-la? Como o que lhe pertencia era apenas o sofá-cama, ele resolveu colocar a estante em cima disso para não ocupar o espaço de ninguém. Toda noite era aquela arrumação de tirar estante, abrir sofá, forrar cama, deitar e de manhã desforrar cama, fechar sofá, colocar estante. Os livros continuaram nas famosas sacolas plásticas a espera do dia em que estariam livre daquele aperto e lindos na estante de metal, mas os dias passaram e nada foi providenciado para que Maurício pudesse guardar seus livros. O rapaz então imaginou que não precisava ter aqueles objetos em mãos, imaginou uma maneira de se livrar deles. Começou a ler de forma admirável todos os livros e a cada um que acabava a leitura ele doava para bibliotecas, vendia para sebos, presenteva amigos. Lia dois de uma só vez, passava madrugadas lendo, amanhecia debruçado nas páginas cheias de letras. Pensou até em concorrer nesses programas de tv que oferecem fortunas em gicanas bestas, desistiu da idéia porque era tímido demais para se exibir na tv. Até que a casa de esvaziou dos livros de Maurício.

As sacolas plásticas ao lado das caixas de papelão do quartinho da bagunça viraram sacos de lixo e não são vistas mais pela casa, a estante de livros hoje guarda os retratos das novas namoradas do irmão, os pacotes de fraldas dos gêmeos da irmã, os imãs de geladeira da empregada, a Bíblia da mãe, as meias de futebaol do caçula, o bilhete de despedida do pai e o único livro que ele não conseguiu acabar de ler: a apostila do concurso que resolveu fazer ao saber que estava desempregado do serviço de empacotador do supermecado vizinho. A crise pegou todo mundo, seu Maurício!

O rapaz hoje tentou buscar na estante da memória passagens de um livro... um dos primeiros que guardou na memória, mas não recordava de nomes importantes. É que o livro falava de muitas gerações, de cem anos, de nomes repetidos...

Maurício olhou para sua estante e não viu seus livros, não achou mais suas sacolas, não pode recuperar a história. Só via pedaços das histórias individuais de sua gente.

5 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Edu, é um senhor conto! Muito, muito bom. Estou deveras encantada!
Beijos
Maria

aeronauta disse...

Muito bom. Ah, esses cem anos de solidão!

Bernardo Guimarães disse...

que texto bonito!
nem pense que vai escapar do "sobre cada um".é apenas uma questão de tempo. vai na viagem do trem que marcus tá programando?vamo?
abr.

Janaina Amado disse...

Nossa, que texto triste! Quase chorei. Emocionante.

Sofa Cama disse...

Artigo fantástico,excelente história,parabéns pelo o blog