segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Negro Drama



É engraçado observar a força que as coisas tomam quando estamos mais distantes, olhar os problemas de fora ao mesmo tempo em que nos ajuda a pensá-los com mais propriedade porque não estamos cegos dentro do olho do furacão, faz também dimensionarmos tudo. E eu que amplifico tudo em mim, acabo ficando num estado difícil de lidar comigo mesmo. Ler sobre este fato acontecido num show de Seu Jorge, no Rio de Janeiro (clicar aqui para acessar o fato) no mesmo dia que soube sobre o resultado das eleições em Salvador, me deixou com pesar, triste e apreensivo. Alguns podem pensar que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas se pensarmos bem uma coisa é a outra também. Salvador terra de preto, com tantos negros dramas, eleger um candidato que historicamente vem da elite branca, com interesses bastantes específicos e conhecidos, do mesmo histórico familiar e político que transformou Salvador nesse eterno carnaval, nessa eterna bestialização de tudo, festa, entretenimento e só. Nesse emburrecimento coletivo. O verão nosso de cada dia, o carnaval que se aproxima, o camarote que invade a praça do povo, os brancos que se isolam com suas chapinhas dos pretos que se acabam ali embaixo.............. e ninguém tem interesse na poesia.

Peço a quem tiver paciência de ler este meu desabafo que escute Seu Jorge recitando esta letra, que leia esta letra e principalmente que acesse o link e conheça esta aberração que aconteceu na Fundição Progresso do Rio de Janeiro.

Negro Drama
dos Racionais'MC's


Negro drama,
Entre o sucesso e a lama,
Dinheiro, problemas,
Inveja, luxo, fama.
Negro drama,
Cabelo crespo,
E a pele escura,
A ferida, a chaga,
A procura da cura.
Negro drama,
Tenta ver
E não vê nada,
A não ser uma estrela,
Longe meio ofuscada.
Sente o drama,
O preço, a cobrança,
No amor, no ódio,
A insana vingança.
Negro drama,
Eu sei quem trama,
E quem tá comigo,
O trauma que eu carrego,
Pra não ser mais um preto fodido.
O drama da cadeia e favela,
Túmulo, sangue,
Sirene, choros e vela.
Passageiro do Brasil,
São Paulo,
Agonia que sobrevivem,
Em meia as zorras e covardias,
Periferias, vielas e cortiços,
Você deve tá pensando,
O que você tem a ver com isso,
Desde o início,
Por ouro e prata,
Olha quem morre,
Então veja você quem mata,
Recebe o mérito, a farda,
Que pratica o mal,
Me ver,
Pobre, preso ou morto,
Já é cultural.
Histórias, registros,
Escritos,
Não é conto,
Nem fábula,
Lenda ou mito,
Não foi sempre dito,
Que preto não tem vez,
Então olha o castelo e não,
Foi você quem fez cuzão,
Eu sou irmão,
Dos meus trutas de batalha,
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim..tim..
Um brinde pra mim,
Sou exemplo, de vitórias,
Trajetos e glórias.
O dinheiro tira um homem da miséria,
Mas não pode arrancar,
De dentro dele,
A favela,
São poucos,
Que entram em campo pra vencer,
A alma guarda,
O que a mente tenta esquecer,
Olho pra trás,
Vejo a estrada que eu trilhei,
Mó cota
Quem teve lado a lado,
E quem só fico na bota,
Entre as frases,
Fases e várias etapas,
Do quem é quem,
Dos mano e das mina fraca,
Hum..
Negro drama de estilo,
Pra ser,
E se for,
Tem que ser,
Se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
Sempre a provar,
Que sou homem e não covarde.
Que Deus me guarde,
Pois eu sei,
Que ele não é neutro,
Vigia os rico,
Mas ama os que vem do gueto,
Eu visto preto,
Por dentro e por fora,
Guerreiro,
Poeta entre o tempo e a memória.
Hora,
Nessa história,
Vejo o dólar,
E vários quilates,
Falo pro mano,
Que não morra, e também não mate,
O tic tac,
Não espera veja o ponteiro,
Essa estrada é venenosa,
E cheia de morteiro,
Pesadelo,
Hum,
É um elogio,
Pra quem vive na guerra,
A paz nunca existiu,
Num clima quente,
A minha gente sua frio,
Vi um pretinho,
Seu caderno era um fuzil.
Um fuzil,
Negro drama.
Crime, futebol, música, caraio,
Eu também não consegui fugi disso aí.
Eu so mais um.
Forrest gump é mato,
Eu prefiro conta uma história real,
Vô conta a minha....
Daria um filme,
Uma negra,
E uma criança nos braços,
Solitária na floresta,
De concreto e aço,
Veja,
Olha outra vez,
O rosto na multidão,
A multidão é um monstro,
Sem rosto e coração,
Hey,
São paulo,
Terra de arranha-céu,
A garoa rasga a carne,
É a torre de babel,
Famíla brasileira,
Dois contra o mundo,
Mãe solteira,
De um promissor,
Vagabundo,
Luz,
Câmera e ação,
Gravando a cena vai,
Um bastardo,
Mais um filho pardo,
Sem pai,
Ei,
Senhor de engenho,
Eu sei,
Bem quem você é,
Sozinho, cê num guenta,
Sozinho,
Cê num entra a pé,
Cê disse que era bom,
E a favela ouviu, lá
Também tem
Whiski, red bull,
Tênis nike e
Fuzil,
Admito,
Seus carro é bonito,
É,
Eu não sei fazê,
Internet, video-cassete,
Os carro loco,
Atrasado,
Eu tô um pouco sim,
Tô,
Eu acho,
Só que tem que,
Seu jogo é sujo,
E eu não me encaixo,
Eu sô problema de montão,
De carnaval a carnaval,
Eu vim da selva,
Sou leão,
Sou demais pro seu quintal,
Problema com escola,
Eu tenho mil,
Mil fita,
Inacreditável, mas seu filho me imita,
No meio de vocês,
Ele é o mais esperto,
Ginga e fala gíria,
Gíria não, dialeto
Esse não é mais seu,
Hó,
Subiu,
Entrei pelo seu rádio,
Tomei,
Cê nem viu,
Nóis é isso ou aquilo,
O quê?,
Cê não dizia,
Seu filho quer ser preto,
Rhá,
Que irônia,
Cola o pôster do 2Pac ai,
Que tal,
Que cê diz,
Sente o negro drama,
Vai,
Tenta ser feliz,
Ei bacana,
Quem te fez tão bom assim,
O que cê deu,
O que cê faz,
O que cê fez por mim?
Eu recebi seu tic,
Quer dizer kit,
De esgoto a céu aberto,
E parede madeirite,
De vergonha eu não morri,
To firmão,
Eis me aqui,
Voce não,
Se não passa,
Quando o mar vermelho abrir,
Eu sou o mano
Homem duro,
Do gueto, brow,
Obá,
Aquele louco,
Que não pode errar,
Aquele que você odeia,
Amar nesse instante,
Pele parda,
Ouço funk,
E de onde vem,
Os diamantes,
Da lama,
Valeu mãe,
Negro drama,
Drama, drama.
Aê, na época dos barracos de pau lá na pedreira onde vocês tavam?
O que vocês deram por mim ?
O que vocês fizeram por mim ?
Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho
Agora tá de olho no carro que eu dirijo
Demorou, eu quero é mais
Eu quero até sua alma
Aí, o rap fez eu ser o que sou
Ice Blue, Edy Rock e Klj, e toda a família
E toda geração que faz o rap
A geração que revolucionou
A geração que vai revolucionar
Anos 90, século 21
É desse jeito
Aê, você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você, morou irmão?
Você tá dirigindo um carro
O mundo todo tá de olho em você, morou?
Sabe por quê?
Pela sua origem, morou irmão?
É desse jeito que você vive
É o negro drama
Eu não li, eu não assisti
Eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama
Eu sou o fruto do negro drama
Aí dona Ana, sem palavras, a senhora é uma rainha, rainha
Mas aê, se tiver que voltar pra favela
Eu vou voltar de cabeça erguida
Porque assim é que é
Renascendo das cinzas
Firme e forte, guerreiro de fé
Vagabundo nato!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Casa escorrendo

Dizem que a casa é reflexo dos donos.
Hoje amanheceu tudo escorrendo aqui.
Descarga quebrada,
Infiltração no teto,
Olhos pingando
Pingando
Pingando
Pingan...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Gaivotas no trapézio

"Quem bater primeira dobra do mar
Dá de lá bandeira qualquer
Aponta pra fé
E rema."
(Dois barcos - Los hermanos)

O mar anuncia chegada de ondas fortes, céu cinzento, escuro, maresia e angústia. Buscar equilíbrio é questão de sobrevivência. Mas onde? Quem? A partir de quando? Agora. Aqui. Em mim. Não adianta as mãos esticadas enquanto estamos no trapézio, a queda é certa, mas o voo também. E há gaivotas no meu quintal.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Tão roxo assim

Num táxi em Portugal:

Taxista: Me diga, quem escolheu a cor desta cadeira de rodas?

Eu: Eu mesmo escolhi.

Taxista: Esta cor é bastante estranha! É roxo ou lilás? Mas antes que me responda, deixe eu dizer que roxo é uma cor mais de homem, masculina...

Eu interrompendo o homem: Então é lilás porque eu não sou tão roxo assim.

domingo, 16 de setembro de 2012

O tesouro de Clarice

É impressionante como fico feliz quando eu atendo aos pedidos do bichinho que fica no meu ouvido dizendo coisas. Nos projetos que envolvem Judite é sempre assim. Desta vez não foi diferente. Estamos em processo de produção do audiobook, aquele que tem a narração de Malu Mader, que ganhei o prêmio do MINC.... pois bem.

Ontem recebi um tesouro produzido pelas mãos mágicas de Clarice Cajueiro. Eu sabia que as ilustrações do livro tinham que ser feitas por Caco, minha amiga e artista referência. O que Clarice fez para o novo livro de Judite não tem explicação, não tem como descrever, traduzir em palavras tamanha sensibilidade e beleza. Pegou situações, coisas nossas, juntou nossas vidas com a história da lagarta (que é exatemente isso: a vida) e traduziu em imagens de profunda grandeza. Tem até a casa de meu avô, o quintal onde Judite mora. Emocionante!!!!!

estou louco para publicar alguma coisa aqui, mas ainda não podemos. Então registro meu amor maior, minha gratidão e felicidade por seu trabalho, Caco. E eu ainda serei um livro ambulante, vontade de tatuar tudo, cada detalhe lindo!!!! e ela captou tudo que conversamos, todos os meus desejos, minhas intenções. sem obviedades, estimulando a fantasia. 

Espero que todos nós (crianças que somos) possamos desfrutar de seu trabalho e inspiração. que venham mais e mais ilustrações. SEMPRE!!!!

Aqui, o link onde encontramos algumas fotos de Clarice: http://www.flickr.com/photos/clacaju/

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Feliz aniversário, Malu

Amanhã passearei com minha festa de aniversário na exposição "Levando os elepês de Gal para passear", na Galeria ACBEU, às 19h.

O nome da minha performance é "Feliz aniversário, Malu". E para quem será a festa?

Para a senha do meu computador.
Para minha referência de beleza.
Para a voz de Judite.
Para o início de todo desejo artístico.
Para a minha primeira cadeira de rodas.
Para a confidente de segredos inconfessáveis a pessoas reais.
Para uma coleção de fotografias.
Para o amontoado de reportagens.
Para as mãos pingando suor frio.
Para aquelas pernas descendo escada.
Para essas pernas em Odete.
Para os olhos.
Para a voz.
Para a porta voz de coisas que um adolescente interiorano nem pensava em pensar.
Para aquela chuva em dia de domingo.
Para minha camisa velha de dormir.

A festa é para celebrar Arthur, seus elepês, Gal, seu canto, sua voz... A festa é simplesmente para ser festa. Como alegria que não se explica.

Palavra-amor de tia Mabel



Edu Oliveira

Edu o GUERREIRO de DINORAH, o artista arteiro girou, girou, girou na dança.
Girou, girou pelo mundo! Dançou em Pequim,  Xangai, Londres...
Num vôo alto, sem medo de avião, sem medo das Cidades grandes,
carregou na mala as ruas estreitas de Santo Amaro, o seu amor por cada beco,
por cada esquina, pela praça toda; juntou as lições que aprendeu com a mãe, os avós,
e sua gente do recôncavo e aportou em países distantes onde nem a língua desconhecida
o intimidou.
Lembrou dos sambas de roda, das danças dos ternos, da fuzarca das lavagens, das festas
de São João. Juntou todos os sons e ritmos e dançou, dançou bonito, rodando na vida,
rodando no mundo!
Recebeu aplausos e olhares de gente vibrando na Olimpíada Cultural.
A T V não mostrou para o Brasil o talento do filho de Santo Amaro
Não podemos acompanhar com o orgulho de irmãos o espetáculo de Edu em Londres, em
Pequim, em Xangai. Na tela da TV só os ganha
dores nas piscinas, nas lutas, nas corridas.
As medalhas de ouro, a Bandeira do Brasil hasteada só nas competições esportivas.
A competição cultural não foi mostrada para nós.
Hoje Edu está de volta. Deixou Londres sombria e chega a Santo Amaro luminosa, que o
recebe com medalhas e bandeiras!!!
Edu o GUERREIRO está de volta! Vamos abraçá-lo com o calor da admiração, da amizade,
do orgulho que todos nós sentimos por ele ser da nossa Terra e saber tão bem representá-la.
Parabéns Edu! Vá em frente, mesmo que Dinorah chore porque você fará mais uma viagem.
Arrume as malas. Deixe lugares vazios para trazer de volta mais sucesso e mais alegrias para
distribuir conosco.
Boa viagem!

Mabel Veloso

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Evoé, Candoco!!!

Esperando dar 00h para começar a me despedir de verdade. Último dia do projeto Unlimited, com a Candoco Dance Company, iniciado lé em 2010. O tempo passa voando e o que parecia ser uma longa jornada....  já acabou.

Nos apresentaremos no Queen Elizabeth Hall, uma sala de espetáculos do SouthBank Centre, lugar super importante em Londres. Dançaremos dois espetáculos numa noite, primeiro o "Parallel Lines" de Marc Brew e em seguida "12" de Claire Cunningham.

Ainda não quis parar para pensar na responsabilidade, na grandiosidade disso tudo em mim. Se não desconcentro, piro o cabeção, enlouqueço de vez, mas já dá para sentir a tristeza da certeza de não ver mais essas pessoas que se tornaram tão importantes, que dividiram um dos momentos mais importantes da minha vida. Amigos, carinhos, olhares, abraços.... risadas. Muitas risadas.......

Quero apenas curtir esses últimos momentos e queria que sentissem o tamanho do amor que tenho por cada um.

Evoé!!!!!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ser poema

Perdi o ar quando algo em mim sussurrou:
é porque eu só sei ser poema
e gargalhou

foto Edu O.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O presente da outra

Com riso solto me disse que a coisa que mais precisava era de um choro forte, feito torneira aberta. Não era tristeza o que sentia, era apenas vontade de chorar. Como quem desentope pia, como cachoeira que derrama. Em meio a tantas coisas loucas, confessou a inveja do presente da outra. Logo aquela que nunca desejou, nunca teve o menor cuidado, nem tinha interesse naquilo, foi presenteada. Ela que havia parado de beber, de fumar, que fez de tudo, até promessa para o presente chegar.... NADA!!! Até agora nada. E emendou com a história dos olhos que se beijaram.

Não foi bem assim, mas achou natural as bocas se encontrarem já que os olhos tocaram antes e foi inevitável os lábios, as línguas, as salivas, o coração ofegante, o toque nas costas, o pau subindo.... Foi quase um choro, me disse e recomeçou a gargalhar. Depois saiu e voltou com um cigarro na mão. Estava muito nervosa e o presente da outra ainda estava entalado em sua garganta. A partir de agora ia parar de pensar nisso, voltar a fazer tudo que havia parado de fazer. Voltou a falar de onde parou. O pau duro sob as calças e barba por fazer. Acabou o cigarro como torneira e nem respirava com os pensamentos feito cachoeira derramando. A fala silenciou, mas podíamos ver seu peito ofegante, seu ventre bulindo como o presente da outra crescendo, crescendo, crescendo, crescendo......