domingo, 5 de fevereiro de 2012

Uma carta para B

Quero escrever agora para quando ele acordar ler o que sinto. Para ele que me habita desde o primeiro momento e que eu sabia que seria assim suave, leve e gostoso como seu olhar. Aquele primeiro e inesquecível olhar. Ele que vive escondido aqui dentro como uma alfinete em bolso da mochilinha que ele prometeu ser para mim. Ele que viaja comigo mesmo eu estando aqui e lá, lá longe. Ele que é o meu B em querer. Te quero sempre. Escrevo agora como quem nunca escreveu um EU TE AMO e treme à primeira vez. E este EU TE AMO é tão repetido, é tão verdadeiro, é tão dele que só ele entenderá porque escrevo agora. Escrevo porque ele chegará em casa de viagem longa, cansado e eu não estarei para colocá-lo no colo, embora seja ele quem me acaricia a cabeça toda noite na hora de dormir, naquele momento em que eu pego no sono com o pensamento em casa neste quarto grande de cidade fria. Só ele em mim e o nosso silêncio. Este silêncio que não consigo reproduzir e por isso encho de palavras esta tela, porque silêncio daqui pode parecer esquecimento e eu sou só lembrança e saudade.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Da vez que vi a neve, mainha

 Foto de Mickaella Dantas
 
O quintal está todo branco, mainha. Tem glace de bolo por todo canto, com aquele côco ralado por cima, cobrindo tudo: mesa, cadeira, ávore, telhado e até o gramado. O balanço também está coberto e minha criança que passa as madrugadas ali não poderá brincar. Tudo escorrega e uns pontinhos brilham.

Meu coração está excitado, mainha. Não sei se será bom se isso assim continuar. Como poderei sair de casa, mainha? Como poderei sambar? Trabalhar, eu conseguirei? O frio está de matar e meu pé congela se coloco o nariz de fora. Na rua o pessoal só enxerga meus olhos, fico parecendo frigobar transportado de lá para cá. Os pés inchados com tanta meia, as pernas grossas com a meia dúzia de calças e o peito estufado de tanta blusa e casaco.

Está tudo bem e eu estou feliz, mainha. Era aqui que eu sempre desejei estar e todos os dias eu acordo e ainda assim continuo sonhando. Lembro da minha tristeza de 2003, da frustração e da certeza que não adiantava sonhar. Hoje vejo a grande besteira dos meus pensamentos naqueles dias. Hoje vejo todos os meus sonhos se realizando e estou certo que essa brincadeira de sonhar alto demais acaba dando em alguma coisa que a gente nem imagina que um dia pudesse acontecer de fato.

Espero que a senhora também esteja sonhando, mainha. Um dia veremos, juntos, a neve deixando doce os nossos quintais.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Como sei lembrar de você



Daqui a pouco Gal Costa subirá no palco principal da Praça e cantará em frente a Nossa Senhora da Purificação, enquanto eu aqui cantando London London, pensando nelas. Poucas vezes perdi o festejo de minha terra. Hoje é o sábado da lavagem, véspera do dia mais esperado das festas de fevereiro que começam em janeiro. Sempre acontece no último domingo do mês a lavagem do adro da igreja matriz e o sábado sempre foiconsiderado pelos moradores. Uma parte da minha família mora na praça e lembro, eu bem pequeno, na janela do alto vendo minha mãe atravessar a rua, animada, de macacão brancotipo de frentista de posto. Sua turma, naquele ano, havia combinado sair assim, todo mundo igual. Hoje tem os blocos e os abadás que uniformizam a coisa de forma feia, comercial, tem trio elétrico, bloco infanttil, bloco de homens vestidos de mulher, tem bloco de samba, show no palco e a farra vai até o amanhecer. Sempre segui o roteiro todo, começava às 16h acompanhando criança, filha de amigos, voltava com os reinando com os homens travestidos, dava a volta na cidade com os sambistas e parava, bebado, na frente do palco. Rodávamos a praça e ficávamos lá até os primeiros foliões da lavagem chegarem. Dormíamos de manhã e à tarde já estávamos prontos para nova etapa da gincana, até a madrugada de segunda.

Sinto o cheiro do pastel de Feira de Santana! Fiz amizade com os mais tradicionais vendedores de Capeta e Nevada da festa, eles nem colocam mais barracas, mas a amizade continua. Já aconteceu de tudo: namoro que começou, namoro que acabou, despedida, comemoração de 15 anos em pleno Bagacinho (conjunto de barracas padronizadas que circulam a igreja), morte, comemoração de vestibular, fim de amizade.... uma história rica passando na minha cabeça, enquanto choro. E os shows de Eduardo Alves, amigo compositor, estrela da terrinha. Inesquecível também um show de Estela Maris, Graça Reis, Luciano Calazans (perdoem se errei o sobrenome) e Marcio Valverde, o que eles fizeram o O Estrangeiro, de Caetano, é uma das coisas mais belas que já ouvi.

É bem verdade que as festas tinham perdido seu encanto, alguns prefeitos fazem do gosto pessoal o roteiro musical, impondo aos outros umas marmotas, mas este ano me parece que voltamos a ter uma beleza naquilo ali. A programação está bem diversificada e com artistas de muita grandeza, além de respeitar os locais, que todo mundo adora.

Para encerrar, uns versos de Du que recebia todo mundo, todos os dias assim:

" A cidade está em festa, se enfeitou pra receber você aqui
Pode vir...."

Não poderei aceitar o convite. Fica para a próxima!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uns mais gostosos

No final das contas, deu tudo certo para eles que se encontraram meio por acaso em ensaio de samba. Os olhares, os sorrisos, os brilhos, os quadris quebrando e a mão em gancho numa caipirinha quente de um e o outro com cerveja sempre gelada. Passaram a noite entre olhares e escapulidas para outros corpos bonitos e gostosos, suados ao ritmo da música e ao contato com outros corpos mais bonitos e mais gostosos. Talvez seja exagero dizer que todos aqueles corpos fossem bonitos e gostosos, mas a energia e a bebida deixavam todo mundo assim.

Antes da banda encerrar o show trocaram algumas palavras, nada mais do que um "Oi", "Tudo bem?" e já foram se beijando como se a noite acabasse ali junto com os tambores silenciados. O beijo não foi lá grandes coisas, o cheiro também não agradou, perfume feminino, enjoadinho, não houve pegada. Acabaram o amasso, se despediram e não quiseram voltar para casa.

Ambos continuaram sentados em mesas separadas à caça de outros menos bonitos mas, quem sabe, mais gostosos.
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Aqui, dicas para ensaios de verão de 3 rainhas da nossa música (por ordem de dia da semana):

Sandra Simões - Samba Urbano - Piolla (Rio Vermelho) - toda segunda-feira



Marcela Bellas - Achei Music - SESC Pelourinho - toda sexta-feira



Juliana Ribeiro - Amarelo Verão - SESC Pelourinho - todo sábado

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A bosta e o grito

Há uma semana recebi esta mensagem de Ana Rita Ferraz, uma amiga querida, psicóloga, pessoa inteligentíssima e muito sensível. Estive viajando neste período e demorei a atualizar a leitura dos emails. A dor e o grito permanecerão para sempre, a indignação também. Por isso compartilho aqui no meu espaço, na tentativa de fazer ecoar esta voz, estas palavras e que possamos pensar de que maneira agir para melhorar esta bosta em que estamos metidos.

Pintura do norueguês Edvard Munch de 1893

Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 
(JOÃO CABRAL DE MELO NETO)

Toma que o filho é teu. Meu?

Para e por Maria Eduarda

Há dois mil anos te mandei meu grito,  
 Que embalde desde então corre o infinito...
 Onde estás, Senhor Deus?... 
Vozes D’África – Castro Alves


Embalde corre o infinito. Inutilmente corre o infinito. Por quem, afinal, chamam os filhos deste solo? Há dois anos escrevo para a pátria mãe gentil. Em vão. A minha Pátria é um Call Center. De quem são os filhos que inutilmente gritam por seu colo?

Minha sobrinha foi assassinada agora à noite. Eu a vi nascer. Hoje a levo de volta. Agora, agora, agora, agora: morrem neste instante dezenas de jovens. Conseguem escutar os gritos?

Não vou falar das alegrias que vivi com ela. Essas estão no lugar daquilo que não pode ser dito. É meu. Mas é preciso dizer algo. E que o dito ganhe muitos outros corpos. Posso gritar e que esse grito se junte a muitos gritos para nos despertar da alienação instalada. Nós vivemos em estado de analgesia. Somente quando somos atravessados por balas, a nossa sensibilidade grita.

Tomada de dor tento te escutar, Maria Eduarda. À própria custa você está me ensinando algo sobre mim mesma. Que a vida é incerta e toda tentativa de antecipação e de controle são vãs? Que a doença está na preciosa adaptação aos esquemas que persistimos criando? Que a custa também é nossa? O que os jovens estão tentando desesperadamente nos fazer escutar?

Semana passada um homem “num dia de cão”, em São Paulo, saiu atirando a esmo. Sim, porque  o controle nessa sociedade que inventamos se espraia insidiosamente, usando de ardis. Em que direção devemos atirar já não sabemos. E por não saber, escondemo-nos nas nossas casas gradeadas, deixando que o outro faça o trabalho sujo. E depois lhe atiramos pedras e bosta.

Hoje as autoridades eleitas e as que almejam a nossa atenção nas urnas foram ao Bonfim. Cheios de fé, querem nos fazer crer, pedem ao Senhor da Sagrada Colina que cuide da cidade. Eu aqui rogo à mesma entidade que não os escute. Precisamos criar a nossa salvação.

Ano passado promotores do Ministério Público reuniram-se para cobrar da Prefeitura de Salvador, considerada a mais negligente com relação ao cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, relativamente à proteção daqueles em situação de vulnerabilidade e risco, ações concretas para atenção ao Estatuto. De quem é o filho, afinal, continuo me perguntando? Num jogo de empurra, as crianças, os jovens e suas famílias, longe de um berço esplêndido, são filhos de ninguém. Nós somos os filhos de ninguém. Nós somos filhos do abandono.

Por outro lado, apenas nos lamentamos. Não, o mundo não vai acabar em dezembro. Esta acabando agora, a cada dia, a cada silêncio nosso. E nem percebemos que fomos nós que abrimos a porta para que nosso jardim fosse pisoteado. Como se não bastasse oferecemos em sacrifício o nosso cão e, por fim, subimos nos ombros do gigante  adormecido para apagar a lua.

Meu pai e tantos outros brigaram para que esse fosse um país democrático. Muitos morreram. Hoje já não se morre por uma causa. Morre-se por não comprar o carro último tipo. Meu pai brigou para que um governo de esquerda se instalasse. Lembro que chorou quando colocou seu voto para Lula na primeira vez que ele venceu. Será que vocês não viram o choro do meu pai? Era de alegria. Hoje, meu pai está chorando. Não escutam o grito de tristeza?

Tenho entrado em contato com situações nas quais observo a ausência completa dos poderes públicos. Temas como o extermínio das juventudes são incluídos na pauta de Organizações Não-Governamentais. Jovens e crianças são todos os dias adotados por traficantes e criminosos de toda ordem que assumem o pátrio poder. Na ausência do Estado, a barbárie. Na ausência do cuidado, a droga e a arma. Na ausência do colo, o frio, a raiva e o sentimento de menos-valia.

Estive, ano passado, na Delegacia para Menor Infrator - DAI. Não há água para higienização do ambiente. Não há água para beber. O cheiro desagradável traduz a violência do Estado contra seus filhos e filhas. Os menores são colocados em celas, onde permanecem com roupas íntimas, “para sua segurança”. Nessas celas, nenhuma dignidade. “Que embalde corre o infinito./ Onde estás, Senhor Deus?”.

Os governantes liberaram, agora, verbas para criar instituições de apoio para usuários de drogas. Os astros do planeta axé doaram generosamente o seu cachê. Não ouvi os senhores governador e prefeito, falando no investimento para efetivação de políticas juventude, políticas de promoção da saúde e da educação. Escamoteiam, com tais estratégias, a ausência do Estado, fazendo coro ao jogo de empurra.

O moço de São Paulo estava doido, disseram.  Um psicótico, atuando em delírio, sai atirando para todo lado. A DAÍ não é uma fatalidade. A cracolândia e as sua fronteiras cada vez mais largas não são uma fatalidade.  O desvio de verbas pela corrupção, também não. O país cresce à custa de seus filhos e filhas.

Sempre que ouço comentaristas econômicos me questiono sobre os investimentos do nosso governo. Um país que desponta na economia mundial como grande potência – 6ª economia. Fico envergonhada. Eu grito. Do outro lado da linha, o Call Center me responde: “Senhora, todos os ramais estão ocupados”. E aqui continuo com a boca aberta e um grito. É tudo o que tenho: o meu grito. É tudo o que posso: gritar.

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!... 
                                        (CASTRO ALVES, NAVIO NEGREIRO)


Ana Rita Ferraz
Cidadã Brasileira
12 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Eu te amo 2012

Talvez tenha sido sonho. Eu novamente em Sto Amaro, na Rua C, vendo crianças correndo na rua e eu na porta sentindo o vento e o tempo passando, jogando conversa fora com Paula, rindo e lembrando. O poste quebrado deixava tudo escuro, em silhuetas, intensificando a sensação de sonho. Fiquei assim durante uma semana, quando tudo voltou com força e o coração na boca a cada bom dia recebido, o corpo sem entender em que época estávamos. Os cheiros, as cores.... claro que tudo atualizado com as crianças que nasceram nos seios das nossas famílias, mas eu também estava ali e ainda estou e ficarei para sempre.

Me despedi de 2011 com gratidão, com olhos brilhando por tudo que aconteceu e até a saúde mais frágil não impediu as alegrias.

Foram tantas alegrias que a tristeza se intimidou e se recolheu. Só posso pensar colorido, feliz. Só sei falar de festa e conquistas.

Desejo que 2012 seja assim também, uma alegria infinita. Com meu amor sempre juntinho, todos os meus amigos por perto, os antigos e os novos, minha família cada vez mais unida e tanta gente que está por vir.

Evoé!!! Evoé aos deuses da Dança que tanto me agraciaram e eu só tenho que agradecer e dançar. e sempre com a carinha descarada de sempre.

foto de Nei Lima

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

This Love

Às vésperas de mais uma viagem longa e distante, me ponho a lembrar da minha primeira saída de casa para demorar mais do que uma semana. Conhecendo lugares nunca imaginados, línguas nunca faladas nem beijadas, caras, jeitos, sabores, odores, as cores... AS CORES!!!! roupas, ruas, matos... estradas... céu azul de sol a pino e frio... O FRIO!!!! chegada de verão e aos poucos o calor... O CALOR!!! amigos novos, antigo amigo-irmão. La Seyne, Marseilles, Sanary... Lisboa, Madeira, Funchal... Munster, Colônia, Berlim... encantos, amores, desentendimentos, briga feia, expulsão, acolhimento... estacionamento, boate, escada, parque... loucura, bebedeira e tanta coisa, tanta gente... muitas reticências.

Esta viagem me marcou profundamente e até hoje acho que viajo aquela viagem. O retorno nunca mais foi nem será o mesmo. A forma de viajar também. O que vejo, o que sinto, o que sei... sempre as reticências.

Esta música do Maroon 5 é a trilha sonora mais marcante, mais lembrada, mais sentida. Representa tanto e ele (o cantor) corresponde aos sonhos vividos naquela Europa que nunca mais foi a mesma depois de 2004.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As canetas de Roberto Carlos

Eu não gosto de publicar os textos de um blog no outro, cada um tem sua função e finalidade, tem um discurso que eu quero defender, mas tem assuntos que passeiam por esses interesses e acabam confluindo e por isso, publico aqui um que escrevi para O Corpo Perturbador, porque tem pessoas que visitam o Monólogos e não aquele e também o Mínimo Ajuste que não conhecem os meus pessoais. Por isso hoje, será um festival das "Canetas de Roberto Carlos", para que possamos pensar juntos.

Não é nenhuma novidade nem surpresa a rapidez como as coisas acontecem na internet. Todos os dias, ao entrarmos nesse universo, somos tomados por informações e "febres" que se proliferam velozmente e depois acabam na mesma rapidez. Hoje é um dia em que uma simples foto causou furor no facebook. Me refiro a uma imagem do cantor Roberto Carlos vestindo bermuda e portanto, expondo a prótese que utiliza na perna direita, consequência de uma amputação causada por um acidente com um trem quando era menino.

Se observarmos esta imagem que publico aqui, veremos a quantidade absurda de mais de 3.000 compatilhamentos da foto somente nesta rede social. O que me motiva a escrever sobre isso no blog não é nehuma crítica ou julgamento pela euforia causada por uma simples imagem. É tentar refletir o porque disso acontecer. A deficiência de Roberto Carlos não é assunto novo, nem tampouco ele tenha tentado escondê-la durante toda sua carreira. Inclusive, eu admirava muito o fato dele ser o maior ídolo da música brasileira, tendo uma deficiência e não ser referenciado por isso. Ao contrário de outros tantos artistas e atletas que não conseguem largar este estigma da deficiência e superação. O simples fato de RC nunca ter mostrado as próteses me parece fato normal. Eu também não saio por aí com as canetinhas de fora e nem por isso é recalque, vergonha, complexo. O que aconteceu hoje mostra que ele poderia estar certo, porque as pessoas se ligam numa coisa sem sentido, jogaram a atenção toda para uma perna mecânica, fora os comentários ridículos, como este primeiro onde a fã diz "Tadinho.... amo ele!". Tadinho por que? Outra diz "que sirva de exemplo de superação" e por aí vai. Ele está superando o que ali?

Me pergunto constantemente: o que essas pessoas têm na cabeça? O que pensam? Qual a importância disso? Não são perguntas de revolta, viu? Quero deixar claro porque sei que sou brigão e às vezes o tom fica de briga, mas aqui é simplesmente não entender mesmo. Repito: qual a importância disso?

Ele deixou de ser o Rei? Suas músicas deixam de ter a importância que têm? Se cria uma fissura em sua imagem porque mostra uma prótese que todo mundo já sabia que existia? Há quem prefira acreditar que é uma foto fake. Para mim, pouco importa. Se é montagem, se não é... "se chorei ou se sorri"... se ele usa bermuda, calça, calção, cueca. Se alguém gosta de mulher ou homem. Se usa tatuagem, piercing, cabelo azul. Cada um é cada um e sosmos iguais justamente porque somos tão diferentes.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A exclusão verdadeira

NAÇÕES UNIDAS - DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA - 03 de Dezembro
Mensagem de Ban Ki-moon - Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas por ocasião do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência
Tema: "Juntos por um Mundo Melhor: Incluindo Pessoas com Deficiência no Desenvolvimento"
Tradução: Romeu Kazumi Sassaki

Passaram-se 30 anos após as Nações Unidas comemorarem pela primeira vez o Ano Internacional das Pessoas com Deficiência, então focando o tema "Participação Plena e Igualdade". Durante este lapso, foram alcançados notáveis avanços na tarefa de divulgar os direitos das pessoas com deficiência e fortalecer o marco normativo internacional para a realização destes direitos, desde o Programa de Ação Mundial para as Pessoas Deficientes (1982) até a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006).

Cada vez mais países se comprometem a proteger e promover os direitos das pessoas com deficiência. Não obstante, muitas tarefas permanecem pendentes. As pessoas com deficiência apresentam os índices mais altos de pobreza e de privações; e a probabilidade de que não tenham atendimento médico é duas vezes maior. Os índices de emprego das pessoas com deficiência em alguns países chegam a apenas um terço dos da população geral. Nos países em desenvolvimento, a diferença entre os índices de frequência à escola primária das crianças com deficiência e os de outras crianças se situa entre 10% e 60%.

Essa exclusão multidimensional representa um altíssimo custo, não apenas para as pessoas com deficiência, mas também para toda a sociedade. Este ano, a celebração do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência nos relembra que o desenvolvimento só poderá ser duradouro se for equitativo, includente e acessível para todos. É, portanto, necessário que as pessoas com deficiência estejam incluídas em todas as etapas dos processos de desenvolvimento, desde o início até as etapas de supervisão e avaliação.Corrigir as atitudes negativas, a falta de serviços e o precário acesso a eles, e superar outros obstáculos sociais, econômicos e culturais, redundarão em benefício de toda a sociedade.

Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, faço um apelo aos governos, à sociedade civil e à comunidade internacional para que trabalhem em benefício das pessoas com deficiência e colaborem com elas, lado a lado, a fim de alcançarem o desenvolvimento includente, sustentável e equitativo em todo o mundo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mulher da vida

Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.
Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.
A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
�;Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra�;.
As pedras caíram
e os cobradores deram s costas.
O Justo falou então a palavra de eqüidade:
�;Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno�;.
A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.
Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.
No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.
E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrutível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.
Mulher da Vida, minha irmã.

A minha prostituta - tela de João Alves