quarta-feira, 5 de março de 2008

IR

Não quero comida
Nem quero trabalho
Escravo
Sacrifício no fim do mês?
Não quero você
Nem mais ninguém
Gosto do meu cheIRo
Meu riso
Eu gosto de mim
Urgência para mim é cara feia
É a fome
E eu tenho muita sede
Urge em mim a sede de liberdade
Nada de amarras
IR
Eternamente IR
E rIR de mim
Sem ponto de chegada
IR sem destino
Seguindo meu destino
Sorrindo
Urgentemente IR
Urgência é dormIR

A mão na mão, a mão na cara...

Desculpe, mas eu não posso te dar a mão
Eu não tenho obrigação de te estender a mão
Eu queria mesmo te enfiar a mão
Cara, larga a minha mão
Oh meu irmão, se continuar com essa mão na mão...
Aqui não
Vem, segura na minha mão
Eu te dei a mão, mas você já quer o braço!
Palhaço, larga mão...
Toda hora todo mundo levanta a mão
Bate na palma da mão
Bate a mão na minha cara
Isso é muito caro para você meter a mão
Antes de comer lave
Para comer de mão
Não se comprometa, lave
Não se canse, cruze
Quem passar a mão, leva
Eu de mão no queixo, canso
Apertar a mão
De aliança na mão
Que ninguém leu

terça-feira, 4 de março de 2008

Novela de taxistas

osSó para não perder o costume, uma vez que a cidade de Salvador não me deixa calar em respeito ao desrespeito. Num domingo de ressaca, resolvi sair de casa para relaxar no teatro, coisa que adoro e sempre recomendo.
Escolhi o Theatro XVII pq me sinto bem naquele lugar e também pq é certeza ver coisa boa. Tudo aconteceu como o esperado, mas o que não estava nos meus planos aconteceu também. Burrice minha, porque sei que sempre acontece a mesma coisa, embora há dias que estamos com a esperança um pouco mais viva do que o costume e lá fui eu ligar para uma empresa de táxi solicitando o serviço, lembrei que enviasse um carro com mala grande que coubesse minha cadeira de rodas e etc... depois de 20 minutos, depois que o teatro já havia fechado e sabemos que aquele local não é dos mais seguros, liguei novamente para a central de atendimento da tal empresa e a etendente simplesmente me diz que não tinha carro para me pegar. uma outra pessoa que aguardava também o serviço me aconselhou a ligar para uma concorrente dessa bendira empresa, resumindo liguei para três. chegando o carro da companheira de espera e porque já tínhamos combinado de quem saisse primeiro levaria o outro, o motorista disse que não poderia me levar porque a mala tinha gás e que havia comprado bancos novos de couro e que uma certa feita uma cadeira de rodas rasgou o banco e "quem se responsabilizou?", "eu não sou obrigado a levar cadeira de rodas".. Eu fui obrigado a ouvir isso. O pior de tudo, que isso é corriqueiro, é normal, é o procedimento da maioria dos taxistas de Salvador. No Pelourinho, na Rodoviária, na Praça da Sé... em todo lugar me deparo com um ser despreparado e grosseiro. O que eles esquecem é que são isentos de impostos porque têm um carro a serviço público, que são obrigados a levar quem quer que seja independente do itinerário e que são obrigados a evar cadeira de rodas, sim. mesmo porque estas, atualemente, são desmontáveis e cabem em qualquer carro, mas a preguiça e a má vontade desses cidadãos, não permitem que eles executem sua tarefa de forma correta e honesta. é sempre a mesma "novela"! estou de saco cheio de brigar pelos lugares que vou, pq a falta de educação dos soteropolitanos me agride. Eu não sei o que fazer, pq os orgãos responsáveis não treinam corretamente tais profissionais e a punição que eles sofrem é apenas alguns dias sem trabalhar e que certamente eles não cumprem. pois bem, estou aqui novamente desabafando contra uma coisa inadimissível, cruel e discriminatória.´
Só para não dizerem que não falo de flores por essas pedras e asfaltos soteropolitanos, há mais de dez anos quem faz meu transporte "oficial" é uma pessoa muito generosa, amiga, gente boa, coração grande e que por incrível que pareça é taxista. Obrigado Ed, por não estar na regra!
Foto: Fabienne Frossart de ensaio do espetáculo "Euphorico La-bas Boleta" na França

A Puta e o Cometa

Hoje amanheci muito esquisito!
Falo amanheci ao invés de acordar
Porque, na verdade, nunca me sinto acordado.
Vivo num eterno estado de sonambulismo, apatia...
Hoje, engraçado, eu poderia dizer que acordei
Mas, sei que é passageiro,
Então, prefiro continuar na rotina de amanhecer.
Todas as manhãs iguais, chatas,
Sem brilho, sem sol...
Mesmo que esse, todos os dias,
Me acorde cedinho com seus raios irritantes
Batendo na minha cara
Quando falo bater, é bater mesmo!
Uma agressão!
Tão cedo já começo apanhando,
Sabendo que outros tapas virão dia afora.
Mas esta manhã, não, foi diferente,
Acordei, desculpe, amanheci
Com um desejo de ser feliz!
Não é bem desejo, entenda,
Desejo eu sempre tenho, de manhã ou de noite,
Mas era uma esperança, uma euforia de felicidade.
Não compreendi isso direito,
Eu amanheci querendo “descer do salto”,
Virar uma puta, sabe?
Me abrir,
Parar de sentir,
Parar de amar,
Esquecer esse sentimento idiota e inútil
Que as pessoas e eu, infelizmente,
Chamamos de amor.
Parar de sofrer, me acabar
Ao ouvir Maria Bethânia
(eu sou tão ridículo que chego ao ponto
de querer me jogar pela janela
ao ouvir uma música!),
Eu não posso mais me arrasar
Ao ler Elisa Lucinda:
“Olhos de azeviche, vem cá!... Pode partir...”
Vou incendiar os teatros,
Destruir os cinemas,
Vou eliminar a arte de minha vida!
Eu quero é dar juízo a esse meu coração!
Não acredito que seja possível um coração
Não fazer outra coisa senão sofrer!
Realmente estou precisando transplantar, abstrair,
Ignorar este órgão burro e ainda por cima fiel, imagine!
Masoquista mesmo para ser mais sincero!
Eu hoje quero é ser puta!
Me maquiar, me vestir,
Virar praticamente uma Drag Queen!
É verdade! Vou sair arrasando!
Vou atirar para tudo que é canto.
Saiam de baixo que eu posso acertar em algum alvo.
AH! Que este alvo tenha os olhos que eu quero e que são meus,
As coxas, a boca...
Que venha sangrar meu lençol de azul, de virgem...
Que me coma com todas as suas línguas:
Inglês, Javanês, Esperanto.
Que não me deixe esperando tanto!
É! Hoje amanheci com tanta esperança...
E saudade também!
Saudade do meu cometa de estimação.
Verdade! Não quer acreditar?
Mas eu tive um cometa de estimação.
Parece pejorativo, né?
Mas não é não!
Não era bicho,
Não era capacho, não!
Nem submisso,
Nem serviçal!
Era da minha estima,
Da minha graça,
Do meu amor!
Houve um tempo em que as pessoas
Olhavam para o céu
Esperando um cometa
E ele não apareceu
Eu era bem pequeno
E não sabia distinguir direito
O que era cometa ou o que era uma estrela cadente.
Tudo tinha rabo,
Tudo era igual para mim!
Me ensinaram a fazer pedidos às estrelas cadentes
E eu pedia que elas um dia se transformassem em cometas,
Para matar minha curiosidade.
Fui crescendo e meu pedido nunca foi atendido.
Talvez achando esse pedido absurdo, impossível, mudei:
Pedi às estrelas que me trouxessem alguém,
Mas elas não entenderam direito
E me trouxeram um cometa.
LINDO!!!
Sorria para mim,
Dançava,
Me ninava,
Me ouvia...
AH! Que cometa lindo!
Ele me elegia e eu me aleijava.
Burro que sou,
Sabendo ser um cometa
E que por tanto se ia,
Me apaixonei!
Aquela sua fonte de luz bastava
Para que eu me sentisse alimentado e feliz.
Ele me colocava em suas costas
E corríamos mundo afora,
A gargalhar, a esquecer do resto, da rotina...
Um dia acreditei que cometas nos faziam felizes.
Você, cometa de mim, me fez, mas me deixou.
Foi sem que eu percebesse que estava indo.
Hoje estou assim,
Vendo somente teu rastro,
Que é muito forte e intenso ainda,
Que ainda brilha iluminando as noites
Em que fico olhando para as estrelas cadentes
Pensando ser você.
As manhãs me incomodam por isso,
Por não me deixarem iludir,
Por impedirem que eu te veja.
Você rompeu o pacto de amizade, de carinho...
Você desprezou meu amor!
Como foi capaz de sair e não bater a porta?
Me deixou dormindo no silêncio de portas entreabertas,
Que permanecem para ver se você volta.
Não meu cometa! Não te perdôo por isso!
Porque você foi, mas não foi inteiro.
Deixou fagulhas dentro de mim!
É incrível! Mais quanto mais distante, mais sinto tua falta e tua presença.
Será que nunca mais teus beijos?
Que beijos!!!
Será que nunca mais você?
Te espero sempre como um mar que tem a certeza do rio,
Mas que mar sou eu sem a certeza de você?
Que rio?Quem riu de mim?
Ah! Cometa de mim me sorria mais uma vez!
Venha me acender, me apareça, por favor!
Eu estou com frio! Frio de você!
Eu estou com fome! Eu estou com medo! Eu estou sozinho!
Ah! Cometas são solitários?
E as estrelas? E as putas?
Puta! Está vendo?!
Hoje eu não acordei,
Amanhacei!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Relembrando "Canto de Cada Um"

Foto: Clarice Miranda




Quanta saudade desse espetáculo do Grupo X de Improvisação em Dança! Com ele ganhamos o prêmio da Fundação Gregório de Matos em 2003 e nos apresentamos no Teatro Vila Velha e Portugal. Agora estamos ensaiando "Os 3 Audíveis - Ana, Judite e Priscila", vencedor do Prêmio Klaus Viana da FUNARTE. Um belo presente para nossos 10 anos de atividades. A estréia será em abril e espero ter muito sucesso com essas três moças juntas.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Foto: Nei Lima
Comemorar


Comemorar, sempre, toda alegria que vem


Comemorar, sempre, toda alegria presente em cada coisinha

Brindar os sonhos!!!

domingo, 9 de dezembro de 2007

A informalidade dos "Direitos Humanos"

Aos amigos queridos, amados, grandes, verdadeiros, de perto e de longe, meu amor eterno. Especialmente aos baianos, mas desculpem se não falarei de flores mais uma vez.

Não sei o que nos faz mudar tanto e agradeço que isso aconteça sempre comigo, porque demosntra que não fico estagnado em conceitos, que posso me adaptar às mudanças e aceitar o novo, mas ultimamente tem sido uma coisa muito forte em mim: a reação que tenho em relação a coisas que antigamente não incomodavam tanto ou, pelo menos, não me agrediam como agora.
Hoje resolvi sair da minha greve de "baianidade" (que comecei depois do fato do PROCON) e fui para o evento dos "Direitos Humanos" no Farol da Barra pensando que seria uma coisa diferente dos carnavais que acontecem durante todo o ano em Salvador. Qual nada, meus queridos!! Tudo aqui acaba na mais banal festa e num vazio entristecedor. Enquanto grandes artistas se apresentavam e falavam coisas tão importantes, a multidão conversava alto e bebia e gritava e se esbarrava e me irritava. Há pessoas que dizem que eu voltei metido das viagens, bem ao estilo "disseram que voltei americanizado...", mas refleti bastante sobre isso e como disse no início, que bom que mudei, que bom que posso melhorar, que bom que meu senso crítico está maior. Sabem aquele absurdo que me aconteceu no Procon? Pois bem, penso que tudo está ligado a uma única coisa: a maneira informal como tudo aqui na Bahia funciona. Hoje no Farol da Barra, por exemplo, havia um número infernal de ambulantes, frutos da falta de oportunidade e de emprego e da péssima qualidade da nossa educação, consequência disso, pessoas quase debruçadas nos isopores bêbadas, sem saber o que faziam ou o que representava aquele evento. Consequência em mim? Pessoas que por tudo ser tão informal se acham amigas de infância e me obrigam ora a ser simpático, ora a ser estúpido. Um chato virou para meu companheiro e dizia que ele deveria sair comigo todos os dias para passear se tivesse oportunidade, como se eu fosse um cachorro sem vontade própria e que devesse ouvir os "conselhos amigos" desse cidadão bêbado e incoveniente. Eu para não bater na cara dele, nem o olhei, porque, se não, depois do tapa eu diria que se ele tivesse oportunidade não deveria sair nunca de casa. Outra senhora achando estar me elogiando e me valorizando, apontava para mim e dizia: ele ta aqui fazendo festa, enquanto o outro está em casa. É algo extraordinário eu sair e fazer festa? Durante a minha vida sempre fiz farra, festa. sempre chorei e ri. sempre amei e odiei. sempre fui humano. Outra num determinado momento queria tirar meu chapéu e usar só um pouquinho. Por que todo mundo se acha meu íntimo? Por que me tratam como criança ou incapaz? Por que não respeitam minha barba e meus cabelos brancos? Sim, amigos, eu já tenho cabelos brancos e uma barba cheia e pensamentos de adulto e trabalho e pago as contas como adulto.
Dentro da festa dos Direitos Humanos me senti desrespeitado e invadido mais uma vez. Lamentavelmente, tenho repetido coisas tristes, porque as pessoas não percebem que não sou obrigado a aturá-las e tudo isso se reflete como os serviços públicos e os serviços em geral nos tratam (deficientes). Essa informalidade e simpatia hipócrita, essa amizade forçada, essa camaradagem, esse "ta tudo bem", definitivamente, essa "baianidade" não dá para mim, porque na terra de encantos e axés, o que fica evidente é essa falta de senso e o despreparo em saber dissernir o público do privado, o limite do outro, o respeito pelo espaço alheio. Vou voltar à minha greve, vou voltar para meu casulo e espero só sair dele quando for para longe.

Não voltei americanizado, mas também não vou ficar aturando baiano chato e burro.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Poeminhas

Foto: Edu O.

BREU

Última luz
A iluminar o breu
De um coração
Que deveria ser teu

NÓS

O nó do nosso amor
Ainda está no meu pescoço
Duro osso
Que ninguém roeu
Nem você
Nem eu


MALASSADO

Meu coração
Anda mal passado
Você passa a faca
Sangra




RODÍZIO DE MÁGOAS

Entrei, sentei e o garçom veio!
Ofereceu-me os mais diversos cortes de mágoas, todas em seus espetos em brasa!
Fiquei em dúvida: pediria uma mágoa bem ou mal passada?
M-água deveria ser insípida, incolor e inodora, mas não é.
Mágoa tem sabor, cheiro e cor!
Uma mágoa bem ou mal passada?
Poderia ser também uma mágoa no ponto!
Nos rodízios as coisas doces são sempre pagas por fora.
Mágoa bem passada é seca.
Mágoa mal passada ainda sangra, está viva!



FLÁVIA GOVAS


- Escrevi há tanto tempo,e nem terminei!rs Vai ver,virei vegetariana!rs

RAITO DE SOL

Você
Sol do meu ciúme
Bronzeando
Outro alguém


LÁGRIMA*

Quando vejo tanta lágrima
Derramada em vão,
Penso na sede sem água do mundo,
Mas, lágrima é água triste!
Não serve para irrigar a terra,
Nem torna mais feliz o chão



* este texto, para meu orgulho e felicidade, foi gravado pela excelente cantora Mariene de Castro no seu primeiro CD Abre Caminho, faixa 13.