Microcontos Devotees

Microconto devotee II - Cleyton Cabral


Seus braços chegavam até depois dos cotovelos. Já seus abraços, percorriam o infinito pleno do meu ser. Eu gosto dos seus abraços. Gosto da suave música do teu corpo no meu. Dentro. Aqui dentro do meu coração. Nem parece que você é diferente. Você é tão igual. Você é tão meu. Você é tão. Você.
 
Microconto de Chorik

Lá fora a chuva caía de forma intermitente. No silêncio do meu quarto eu contemplava mais uma vez aquele corpo nu. Via no rosto a expressão de uma vida inteira roubada pela pólio. Naquelas pernas definhadas pelo esquecimento a inércia convidava ao toque macio das mãos. Os braços estendidos pareciam sussurrar “entra no meu mundo, carrega-me para sempre”. Mas, do lado de cá do espelho, a cadeira de rodas era real demais e eu jamais consumei aquele amor-(im)próprio.

Microconto #252
Tiago Moralles

- Amo sua perna.
- Você fala isso porque não tem escolha.
- Magina, mesmo se você tivesse as duas eu ia gostar mais dessa.


Casa de Massagem III
Marcus Gusmão (terceiro ponto de vista sobre o conto de Herculano Neto)

Enxuguei as mãos, joguei o avental na pia e fui para o depósito. Cheguei a tempo ao meu posto de observação, uma fresta na junção das madeiras da janela do quarto dos fundos. As garotas sabiam quando eu estava ali, mas desta vez não teve a piscadela de sempre. Ela se concentrou em tirar a roupa do cara. Muitas vezes fazia isso com aqueles que achavam estar o serviço incluído no preço. Neste caso era necessidade.

Moro em Alagoinhas e para mulher e filhos justifico Salvador todo fim de semana com uma pós-graduação. De fato, faço o curso, já é o terceiro. Mas à noite trabalho quase de graça numa casa de massagem, como barman.

De repente só havia o corpo dela de costas para mim, agachada de quatro, com os cotovelos apoiados no colchão. Aquela posição era a melhor, dava pra ver todos os movimentos. Mas desta vez não havia outras pernas nem outras mãos. Do cara eu só via a cabeça apoiada sobre o travesseiro. E os olhos. Toda a energia daquele corpo se concentrava nos olhos e na pélvis totalmente envolvida, calçada por outro travesseiro. Parecia um gato comendo um passarinho.

Estava acostumado a olhar. Muitas vezes era só um olhar um pouco febril. Mas desta vez senti a febre mais alta, da nuca para a cabeça. Respirava no ritmo daqueles dois, ritmo intenso, cadenciado, seguido também por minha mão direita. Lá pelas tantas ela virou o pescoço e finalmente me saudou. Notei um sorriso diferente no seu rosto. Gozamos os três quase ao mesmo tempo.


AQUÁRIO
Edynei Santana

Aqui dentro: tesão, verrugas cristalizadas por uma mágoa eco do que há lá fora. Todos são assim (aquários ou seres da terra, somos assim): há as flores e as verrugas, há também ácidas lágrimas quando vejo paixões que até ontem era fogo caírem como folhas secas no vazio das praças em domingos sem carnaval.

Você me olha e não nota o quanto existo, não me trate como criança, daqui de dentro posso te matar, mas antes sugo gota a gota toda tua sedução, para que não machuques mais ninguém.

Quem disse que vivo no não corpo? Vivo dentro do que sou e o que sou só os delicados anjos do calçadão é quem podem sentir, sentir é melhor que ver. Os anjos do calçadão não vivem em um aquário, vivem em uma vitrine, somos iguais em invisibilidade, mas cheios de prazeres nem sempre silenciosos.

Borbulho por amores, qualquer amor, na minha cama sou homem e mulher, a febre das palacianas e a alegria dos mendigos, borbulho em febre, meu aquário é meu corpo e se você pensa que sou frágil posso te afogar no cuspe da minha indiferença.


CASA DE MASSAGEM
Herculano Neto

Sou atendente de uma casa de massagem no Centro de Salvador há seis meses. Minha família acredita que trabalho como doméstica numa casa de família, mas na verdade ofereço serviços sexuais rápidos e baratos. Tudo é muito simples: os clientes tocam a campainha, encontram dez garotas trajando lingerie, escolhem a que desejam, depois pagam e vão embora, como se tivessem acabado de sair de uma lanchonete.

Hoje, observando pelo olho mágico, tive a impressão de que havia um homem com um bebê. Quando abri a porta, descobri que ele carregava o irmão de dezenove anos, que não possuía nem braços ou pernas. O homem disse que era aniversário do irmão e queriam comemorar. As meninas, assustadas, baixaram a cabeça com receio de serem contempladas; eu não – talvez por isso ele tenha me escolhido.

Dentro do quarto, tentei puxar conversa, descontrair o ambiente, mas ele não dizia nada. Então, tirei sua roupa cuidadosamente, segurei seu torso como se fosse uma boneca (ele era mais pesado do que aparentava) e o coloquei numa posição que eu imaginava ser a mais apropriada para o ato. Foi a primeira vez que gozei no trabalho.

CASA DE MASSAGEM II
Herculano Neto

Cheguei ao mundo sem os braços e as pernas. Se existe vidas passadas, e lei de causa e efeito, como dizia minha vó, fico imaginando que merda fiz em outra encarnação.

Todos os dias, meu irmão me deixa na Estação da Lapa pela manhã e me apanha depois do meio-dia. As pessoas que passam por mim, numa mórbida curiosidade, costumam deixar algum trocado, mas nunca peço nada. Muitas têm medo de mim, desviam o caminho, olham com asco, aceleram o passo: e isso me chateia. Sou um cara conformado, sem grandes aspirações na vida, apenas gostaria que me enxergassem naturalmente.

Hoje é meu aniversário. Meu irmão prometeu que comemoraríamos com estilo. Ele disse que seria uma surpresa, mas me levou a uma casa de massagem — já desconfiava. Quando entramos, as garotas me olharam do mesmo jeito de sempre, escolhi a que parecia ter menos medo de mim. Dentro do quarto ela me tratou com muito cuidado, como se eu pudesse quebrar a qualquer momento, o que me deixou ainda mais chateado. Ela me colocou numa posição que não tinha como dar errado, então a fodi com fúria, com toda a força do meu coração, lembrando de cada olhar de desprezo das ruas, enquanto um sorriso de contentamento ganhava sua face.

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- Vou te contar um segredo.
- Qual?
- Eu transei com um homem de uma perna só.
- E aí, foi legal?
- Ele ficou numa posição ótima e me fez de moleta.

Este microconto foi escrito e publicado por Cleyton Cabral no http://cleytudo.blogspot.com/